quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

    Escrito em 13/02/2012 e publicado agora.    

 Nunca escrevera. Não tinha inspiração, dizia. Nem para os relatórios, que eram todos adiados. Nada redigido sequer à empregada. Dos poucos amigos, que o viam depois do período de reclusão, sobraram dois. Um era o apresentador da TV. E o pombo. À época do escrito, abril, não recebia ninguém senão o pombo, logo, contabilizava-se apenas um. Mais tarde e o pombo morreu, assim como escrevera pela primeira vez mais cedo naquele dia. 


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TEMPO                   O sisudo semblante ia da loja de ração ao parque, do banco na sombra, pela rua ensolarada, ao quarto outra vez dormir. Assim dois anos parados, dois anos em que descobriu a memória, tão clara, dois anos viveu aposentado para encontrar algo de fundamental. Foi preciso não fazer nada para entender como funcionava a rotina, o marasmo, o comum, o diário que se torna tudo. Esteve trancado em casa por quanto tempo o pediu sua disposição, por meses necessários para desvendar a literatura, por algum tempo importante então. Estocou alimentos suficientes para durar e para o pombo visitá-lo trazendo notícias. Por quase toda vida vagou, contudo, vagar deu-lhe pernas longas para pular todo o pré-requisito da escrita. E eliminou vidas de leitura das façanhas humanas simplesmente empunhando o lápis. Nesse momento estava pronto.

FAÇANHA                Era pelas tardes frescas do bairro, a chuva do dia anterior não deixava rastros, nem nas folhas encobertas, mesmo assim o sol não aquecia. Voltado ao caderninho vermelho escreveu. Seu lampejo vanguardista resultou na obra máxima e única de sua vida, a epopeia futurista que também, e principalmente, era um ensaio social. De nome simples inspirado na própria história, mas de recheio pomposo até quando foi possível pelas mãos doídas. Letras pequenas espremidas pelos cantos, frente e verso, todas as páginas e sem rasura alguma. Repousou sobre a mesa o livro, as mãos e antebraços, um pouco do cansaço. Sob a mesa deixou os pés esticados, as sandálias vazias e as mãos sobre os joelhos. Sempre soube que compreendia tudo que ninguém imaginava, sempre coube em seu espírito a enorme certeza de um dia concretizar a sapiência. Depois do feito desapareceu a sua inteira harmonia e denovo sentia-se vagar.
OBRA                       Relato do que aconteceria. Teses que se provavam apenas ao se ler. Resumos filosóficos de escolas arbitrárias. Gêneros fundidos, funções embaralhadas; era o épico-lirismo informante, subjetivo e convincente. Qualquer página, excerto, parágrafo resumia a obra inteira. A obra inteira resumia o resto da história do mundo: tudo escrito era falso porque no momento de gravá-la no papel nada já havia ocorrido, entretanto, a obra só tomava sentido quando as pessoas iam tomando consciência da rotina, do marasmo, do comum e da obra. E o inacreditável, para quem conheceu a obra, não foi o não primeiro entendimento, mas que tudo logo se fazia claro. Quem chegou de carro onde estava, se lê-se "carro não existe", voltava correndo para dar tempo de chegar. Assim, a obra só adiquiria sentido quando lida, logo, não havia modo dela equivocar-se.

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     Aquilo que no começo foi mentira, fez-se logo verdadeiro. Aquele mundo confundiu-se com a obra porque a obra fez-se para substituir o mundo. Daquele autor ninguém mais sabe porque ele não assinou ao fim.
Escrito em 07/09/2013 - publicado agora

Você tá aí, não está? Eu sei que sim
anotando tudo que faço
como ando e a que horas passo
anota tudo sobre mim

É que talvez não saiba querido poeta
mas já estive em seu lugar
até que me impuseram uma meta
e hoje faço algo que querem sempre pra já

Muito já me perdi na tentativa de capturar
entender ou conflitar as sutilezas de mim
quando não o era
quer dizer quando apenas um dia o seria
e como poeta escritor e fingidor me sentia
observando a terra
fazia meu escrito muito mais você do que a mim

Mas esse tal do horário que me surge na testa
a cada rua que atravesso são duas que ele encontra
queria poder voltar a conta
e sentar como faz tu agora no fim do dia com a hora que te resta
escrever sobre eu sobre mim
sobre um homem que já se sente homem
porque não tem mais tempo de amar a nada e se engana com tudo

É de mim que zomba, não é? De quem escreve a rir?
como se você fosse maior
e eu menor ou mais desengonçado
sim sim não diga que não
o passo apertado me pertence mas não é forçado
tente ver um pouco além do escárnio pronto em si só
no homem que jura querer sorrir

Pense assim, um pouco mais, veja bem, mas veja

domingo, 13 de abril de 2014

Maquenecer

Já fui carne e osso que pudesse dizer
perdão por toda essa tolice de poema
que pudesse rezar de joelhos aos céus
o mais íntimo e sagrado segredo encoberto
de tanto humano passei-me a sorrir
não só mais amor, como ódio também
Jamais fui homem assim como alí
naqueles tempos a que me refiro agora
e deles retiro o sopro dessa cura
a qual me melhora cada vez que provo
essa bondade de escrever amém
Sendo nessa afirmação berrante de
não mais ter a quem culpar por tal
assumo total incompetência a ser
aquilo que me chamam ainda de gente.

Hoje sou parafuso sem porca
é na solda e no aço da força e carvão
tenho roda e engate de fecho que 
aquece e expande o motor e a válvula
Me sentei ao banco uma vez e nada
na segunda também nada me houve
mais uma e enfim estive pronto a maquenecer
Encontrei combustível pra diástole e assim
energia pra sístole que se seguia
a fala troquei por este som de ferrugem
o peito por tampa e cabeça por chip
as patas e os pelos como os olhos e boca
perna papo canela e trompa assim
cada osso é quase aço e cada sangue graxa

Hoje ferro quase lata pelo fato do tempo que passa
sou inteiro feito pra contar outros como eu
conto seus dias de vida e seus destinos
obedeço e ordeno quando não recebo envio
sempre calo e consinto por meu programa
por meu aparelho e por meu sistema
Tenho pergunta nenhuma que faça melhor
ou por quem obedeça ou recorra
São tempos de constatar aqui e agora
que apesar de máquina ou sucata
do fundo da caixa que habito
já fui homem nessa vida
e vou findando dizer
é mais um ponto
que emito
me mato
e não
morro





segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Tristão e Isolda


Soa uma nota,
a cada gota que pende da corda
tensionada no quintal
ela passa a noite inteira lá,
esperando quem vier pra resgatá-la.
Mas não vieram não.
O sereno as faz
pendurarem-se todas pela corda
ameaçam queda, toda vez que lhe tocam
a gota cai e a linha vibra,
posso ouvir na barriga que já é algum som.
E é outra gota e é outra nota,
despencando do varal, que me molha
Quando pode, sem que a observem,
recolhe uma ou duas gotas que prestem
armazena em um frasco e o tampa.

A menina é quem cuida, todos os dias
das gotas que moram no varal
Faz questão de coletar uma a uma,
quando é de manhã ainda
e guarda consigo bem escondido
para que não as descubram
durante o dia as carrega aonde vá
E lá vai sempre muito bem nessa tarefa,
mesmo com esbarrões que leva
não deixa nunca seu pote virar,
hora ou outra derrama um pouco,
mas é tão pouco, não se percebe
com a roupa logo trata de enxugar.

Contudo, chega ao fim a noite
repousa vagarosamente,
em sua cama, a única que tem,
mantém-se firme,
mas num leve golpe do cansaço
é desarmada pela lembrança,
se descuida
e derrama finalmente seu pote de gotas
que dizem ser de lágrimas.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

quem meneia? o braço firme de punho apertado é forte e meneia
o esqueleto prestes a se quebrar, e a água transbordando do copo
na areia a derrapar o carro que não freia, e o foco
vejo seus olhos dizendo que sim, enquanto eu digo não

quem ressona? do peito esculpido e bruto apesar da dureza ressona
a coisa elétrica toda ela esperneia, quer prosseguir na certeza
da escassez de argumentos, da força que imprime a leveza
ouço teus lábios mostrando que sim, enquanto eu vejo não

quem condena?
o homem que reprime os impulsos, ou os freios?
o garoto apenas? a mulher imprópria já desfeita dos ombros caídos?
quem condenaria a distância, vivendo o próximo impossível
o afasto dos gostos dos corpos, a resposta
não eu nem você



domingo, 28 de abril de 2013

O galo que tentou mudar seu turno, para que não cantasse mais pela manhã

Tal galo espinafrante de um frondoso cacarejo espanta
o arredio de manhã que nasce, quando foge ao galinheiro e, quieto,
lá também não canta, assim sempre silencia o seu passar do tempo.
E o porco dorme à lama sem despertar, pois o escuro céu se agiganta
triunfante, ainda é tão gritante a luz do sol que se arrebenta
muitas horas do dia passam, o sol retorna ao fim da curva e num momento
temo nunca mais reacordar. Misterioso é o som de galo que não ouço mais.
De repente, ao raso voo de espanadas, asas violentas se acomodam
no mais claro posto da estalagem, do alto é o galo e teu encanto indiscreto
cacarejo acomodado na garganta,  há muito na espera de tornar
eis lá ele inflado, eis lá do alto meu bom galo a concentrar, é três é dois
bem quando, é geral o esbravejo, fecham-lhe o cerco talvez dúzias de animais
- é noite, galo, aqui não cantarás, parte já dai para bem longe, que não morres mais!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Razões

O homem é japonês, em todo magro corpo, transparece seu incomodo, ele treme. Um tanto depois ele caminha numa área com árvores a buscar sombras para sossegar, contudo não há jeito de consegui-lo, devido ao sol que as ilumina. Ele procura água também. Ele transporta um suporte para espadas antigas do século passado sem espadas antigas. Sua roupa semelhante as de samurais e ninjas mais que revelam sua origem, pois estando rasgadas, sugerem ainda alguma batalha com lâminas e quedas ao chão, há sangue nos panos que envolvem e formam sua trouxa na qual contém pequenos alimentos. Porém nunca foi guerreiro ancestral, essa minha história é recente, de homens incomodados buscando voltar ao lugar onde estiveram sempre. Contudo o japonês sabe enorme sua culpa, a família incapaz de perdoá-lo entristece-se diariamente por não poder também protege-lo. Animais observam estranho habitante adormecido entre folhas caídas sem produzir sons a ponto de despertá-lo. Ao seu redor agora estão uma espada, uma bacia com água daquela região, e objetos pessoais como foto, algum colar de linhas torcidas e um cantil. Quando é de manhã ele observa por bastante tempo as árvores e atira pedras com as mãos para espantar os pássaros das copas, que retornam logo, pois ali vivem. Ele perfura o corpo com a espada, morre em segundos.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Um pouco dos quandos, dos comos, dos sonhos


Quando o mundo nasceu, durante a invenção do tempo, decidiu que giraria todo dia em torno de si mesmo, na tentativa eterna de se refrescar, pois fora condenado, por cláusula carimbada, a girar também ao redor do sol, e isso o fazia xingar constantemente os deuses. Assim que, como sempre nos parece, nascia culpado pela própria e única existência – e pior, já julgado e condenado. Dentro desse mundo, que, apesar do astronauta e do horóscopo, se limita à Terra, fez nascer-se ainda a vida, como forma de planta, de bicho e depois de gente.
E esse é um texto sobre a vida no estado de gente.
As pessoas na natureza, nos abrigos, nas aldeias, nas comunidades, nas nações, nas guerras que trouxeram as armas, nas cidades e fora delas, abarco tudo isso na escrita porque hoje trato aqui do sonho humano. Do sopro inundado de certezas que é o estar, e do espirro doente das dúvidas que é o ser. É a vida que sempre nos afora o corpo, pois não nos cabe, por isso nos salta em canto, em tosse, em sexo, em família, em extinto, a vida nos vaza para fora, porque não a suportamos nem por um segundo. Não posso mais explicar.
Em algum momento da história, nós olhamos para o céu, inventamos o fogo e as coisas que matam, começamos a conversar e aos poucos fomos nos parecendo. Mas em toda a história, sem poder precisar desde quando, nós sonhamos. Muitas vezes durante a vida, inúmeras durante a noite e infinitas durante o sonho.
A vida se nos impôs. Pelos sonhos foi que optamos, assim como a terra optou por girar, mesmo quando lhe imposta o sol.


domingo, 23 de dezembro de 2012

Vida esquecida

     Os olhos desgovernados pelas paredes do quarto, pelos móveis, pelos sapatos, quase crentes da felicidade que lhe mostravam sobre a vida, o homem os esfregava seguidamente para não lacrimejarem e embaçarem a nova história que contava sua memória. Ele recém acordado sentia impossivelmente as lembranças da felicidade, porque as possuía, que as avivava, que nunca, quando vivesse aqueles tempos, poderia estar feliz, demais para ser. No entanto, seus olhos batidos tudo o que viam era ela e não outra coisa.
     Antes desse momento, ele insistia em dizer que não comprassem os amigos as comidas daquele país desconhecido, porque trariam problemas certamente. - Ao sabor!, contestavam os outros. - Ao banheiro, isso sim!, ele resistia. E resistia porque se lembrava de outras experiências, e se contava todo dia das suas lembranças, pensando viver das memórias que há tão pouco as tinha. Seus amigos seguiam saboreando, em espasmos de gula como se durassem anos, os mesmos anos em que o homem teve seus espasmos de vida, mas que agora encobertos, contidos. Sua memória aos poucos contou sua vida enquanto a matava.
     Nas memórias do homem, o eu das lembranças devorava o eu dos sentidos. Suas histórias sobre o passado destruíam suas experiências, e as ressignificava outra vez, e outra
. As suas recordações lhe pareciam mais com sua vida do que a própria. E ao passar do tempo as lembranças eram a única coisa que lhe satisfazia, e que fazia. A experiência do homem se tornou apenas lembrar, de viver, de comer de ouvir. Contar-se a história de seu passado o impedia de tê-lo vivido.      Por isso mantinha agora os olhos incrédulos de poder enxergar novamente, por alguma razão. E tateou como nunca as paredes, e admirou os móveis, e calçou seus sapatos de acordar. De repente, foi esquecendo as recordações, apagando as memórias, já não lembrava de nada. Por isso foi estando feliz, - Como nunca estive!, imaginou assim, porque não sabia mais de seu passado. 

Era o homem moderno. Estava cego.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Conversa

Os homens falam das mulheres
mulheres, das dores
crianças, das outras crianças pequenas
você, de você
e seus problemas
artistas, das cores e suéteres
cambojanos, das setas nas cabeças
jornais, de seus autores
idosos, das doenças que têm,
antigos amores
os homens mais fortes, das suas fraquezas
crianças das ruas, de comida
das dores que têm, mulheres e autores
os jornais, dos problemas da vida
as cabeças das pessoas, do que farão
as respostas, do sim e do não
os artistas de dinheiro, do dinheiro,
das pessoas da avenida, os jornais
das respostas, as escolhas
das pequenas lembranças, a vida
de idosos e amores, falamos eu e você
que me ouve, ou que me lê,
quando a conversa é interrompida.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Os cães

Um cão só late na noite escura e preta
porque ouviu outro cão, que late sempre
que outros cães latem, quando é noite
escura e preta, como o cão que só late
e anuncia o verso curto de cão
e reverencia o certo vulto do cão.

Nem mesmo sempre que estive a ouvir
valeu entender como quando vi,
por ser homem de vista e de ouvido,
e nunca de olfato ou conversa, e portanto
tranquilo para reconhecer minhas pernas,
minhas mãos e minhas mesmas costas,
nas marcas que fiz nas carnes do corpo,
as marcas que fiz das carnes no corpo.

Distante, as pessoas e os homens do almoço,
gritando seu dia, seu trabalho sob prédios,
nos falta entender dos remédios das dores
nos falta ostentar os excessos das cores.

Foi isso tudo que vi nas janelas e assentos que visitei
até hoje.
até hoje,

Os cães alardavam que eu voltava,
as moças gritavam que eu voltava,
as câmeras registravam que eu,
mãos me tocavam, choros choravam,
dentes faltavam pra rir que eu voltava,
os boatos confirmavam que eu,
os papéis escreviam, as cortinas abriam,
as cadeiras sentavam que eu voltava,
só meus olhos não criam que eu
voltava, tão outro, para casa.




domingo, 18 de novembro de 2012

Para o verso final não fui forte

   É no papel que melhor enxergo o que há por dentro e o que há por perto do meu coração. Se há algum perigo, escrevo aflito, quando há coragem, um pouco de verdade, salvem a inspiração. Hoje, especialmente, escrevo a perguntar: - Meu corpo, tem em mente vontade de voltar a amar? A resposta é demorada, perco tempo e é quase nada. O silêncio prevalece e me revela o meu sofrer, como se eu já não soubesse que, apesar de tanta prece, meu destino é sofrer.
   Ao papel é a quem venho, pois aprendi é a prosa a contradição desse mundo e poema o que brota para um coração sortudo. Ó! poema, tranquilo esboçar dos versos cadentes, puro amor e expressão, renitente é a prosa, pois não morre não, percorre o tempo até que escorre pelos fios dos cabelos da razão. Não quero a prosa pra viver, o poema é quem me hidrata, queria era poder esclarecer a falta de quem é que me mata da vontade de escrever. A cada ponto final que me nasce, sinto como se a inspiração se enforcasse e morresse da falta do ar que respiro, mas, perdido, o mesmo ar que suspiro foge como se sentisse a mesma falta de ar que eu sinto
   As linhas me imploram que eu as complete e justifique com clareza as incertezas do existir mas de todo lado me chegam motivos pra que eu não as disserte ou metrifique coisa nenhuma porvir. Por merecer, por cuidar, por poder enxergar que nem rima nem verso me encantam mais que o pensar dos poetas dos
poemas, dos muros, dos palcos
engrenagens pequenas no escuro dos fatos, luzes discretas que ofuscam a quem se lhe abram os olhos
e os papéis, ou páginas concretas. Ao lirismo dediquei a vida
a entender que a prosa é a morte
de tudo que achei que sabia

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Morrer de sonetos

Hoje sempre que me assassinam choro
como da primeira vez que morri
minha morte é doença da qual não melhoro
e mal já recordo os dias que sobrevivi

As encostas de meu corpo desmoronam
e a cada morte antecipo o arremate
à resfolga a vida me desapontam
o mártir e o próprio me xeque-mate

Mas os homens que me matam são quem amo
usam armas, usam lanças e as palavras violentas
quando se não ferem, mais a mim me aprisionam

E quando preso há alguém que sempre chamo
as lágrimas, aos prantos em calma desalenta
pois a morte e seu morrer já me contentam

sábado, 20 de outubro de 2012

Supus um dia em segredo que a vida devia estar enganada

Supus um dia em segredo que a vida devia estar enganada
que a repetição dos tempos nos traria aos desencontros
dos momentos instantâneos revividos na memória

A truculência desta ideia me assaltando povoou meu seio
fosse eu em despreparo ou fosse eu em inocência
e o pensamento-violência me teria desmatado
as raízes das certezas construídas sob a crença
de um homem na beleza dessa vida

Que será que ali entretinha minhas ilusões de não viver

enquanto erguia os corações às voltas com grilhões
e a liberdade é dádiva e representação do esvaecer

Eu ali me fabricava outra vez no remorso de existir

não morri inteiramente então porque pude ser poeta

Escravos da própria sorte
... de um amor que é imortal
... e só o homem aprendeu matar

domingo, 30 de setembro de 2012

Sangue de pouca tinta

Nas fundezas de um país
ou de um lugar que é bonito
tem lá muitos homens-pouco
que nos papel não se pinta
é sangue de pouca tinta
que não vale nem um escrito
nem seus feitos nem suas coisas
que é mato, grama, moita, é terra!
e ninguém preocupa: que não pode

Tem homem que vai embora,
novo, e nunca mais que volta
teima de esquecer da família
é sangue de pouca tinta
que não escreve memória, cê vê...
pra se alembrar só no retrato
que na cidade tem muito,
é mundão, e os escrito são grande

Eu num vejo o sertão é nunquinha
lá não vou mais que não quero
que não posso, que me esperam
é distante a viagem demais,
se um dia eu tiver filho que der pros escrito
vou dizer, mesmo que muito sinta:
- és sangue de pouca tinta


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Prosa média

     Assim, de repente, as pessoas perderam suas vontades.
     Não havia mais o som, nem a figura, a cor não existia. Jogaram as tintas todas nos rios, que se tornaram mar, e as fotos dos momentos vividos desbotaram. O movimento perdeu a razão, o gosto deixou de existir, deixaram de existir também os gestos, não tardou e a linguagem se foi. A luz foi indo-se embora junto dos escuros, levaram o tempo, o perdão e o silêncio. Das histórias se esqueceram, dos nomes se desprenderam, dos amores se fugiram. A liberdade já não era tão vistosa, era cara, era tanta, e ninguém quis, e morreu. E os sonhos dos meninos das pessoas acordaram, as rugas da velhice das pessoas se apagaram, as culpas dos pecados das pessoas, absolvição. Ninguém mais juntou versos. As cordas estavam esticadas e um homem as desafinou, alegou moralismo. Só existia no mundo as certezas, que eram muitas e enormes e as crianças as tomavam como sombra. O depois, o antes e o agora, na fusão da vida, se uniram no que disseram chamar saudade. E era tanta falta, tanto arrependimento, tanto remorso, tanta saudade de tudo que não há mais e de tudo que ainda poderia existir mais para frente, que os homens, naquele surto de quase morrer de saudade, se sentiram obrigados a criar.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Mais livre me sinto que morte

Há sempre quem compre alguém
há sempre quem lembre do bem
pra sempre se rompe o além

vá lembre que ainda me tem
vá tente me ser alguém
contente me volte zen

Criança perdida no mato
criança advinda do parto
vi dança esquisita no mato
na frança perdi meu sapato
herança crescida no ato 
finanças de todos os lados

Doença de cão enjoado
Convença do não Seu Geraldo
Conversa de irmão premiado
Vou nessa tão são internado
Promessa de não fazer fado
Prometa a seu tão bem amado

Pintura completa instantânea
Cultura em poeta se assanha
Mistura secreta champanha
Usura afeta a campanha
tontura cagueta a montanha
textura me aperta e arranha

Da morte me sinto mais livre
Mais livre me sinto da morte
Me sinto mais morte que livre
Mais livre me sinto que morte



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Chama, Maria, chama, chama rápido, Maria, chama que ele atende, chama logo, chama mais, chama, Maria, chama com vontade, grita, grita, Maria, anda, grita logo, grita, Maria, grita que ele atende, grita, isso, grita, Maria, grita pra fora que ele escuta, grita bem alto, grita sem medo, Maria, grita, Maria, grita, grita muito, berra então de uma vez, berra, Maria, berra, Maria, berra!

Então ele foi embora de volta pro Ceará.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Discórdia

      Eram mãos atentas apostas para reação a qualquer maior movimento. O braço entrelaça o pescoço do refém apertado, é nó na garganta e impaciência. São também apressados olhares aos lados, a cima, ao homem ameaçado, ao relógio, mas não se pode nem reparar no homem o que faz e nem nas horas. Passam cães saídos de outros becos que ali vão para saber dos ruídos que ouviam se eram lixo fresco. E na verdade eram dois homens de pés juntos fazendo força, um deles com uma faca contra o peito do outro, estagnados pelo medo de matar e de morrer. Não mais se olhavam porque um deu as costas; dois homens, se imaginando nervosos pelas mãos que sentiam tocá-los, pela força que faziam e que recebiam. Um segurava o outro por trás, impondo-lhe uma faca a vista, o outro resistia à verdade. É beco escuro e som estrondo de latão derrubado, quem seria ali se não animais fazendo barulho? Os homens que tinham nas mãos do outro a própria vida: - Te mato ou cala a boca. 
      O silêncio da cidade fugia inteiro àquela viela de sacos de lixo e o tempo passava. Tanta força depois, o homem quase morto esfalecia, ameaçava cair de tonto, num desmaio de fraqueza. Mas o tranco que levava de leve da faca contra o peito o deixava sóbrio afinal. Aquilo era cena de crime, antes do crime. Parecia que o dono da faca era o único com poder de escolha, poderia matar ou não. Era a arma que lhe dava a dúvida e a resposta. No entanto, da vitima veio o apelo, me mate. Num minuto o homem esquecia da faca, da vingança, do potencial assassinato, notou a carne que também formava o homem quase bicho, aquele acuo de gente indefeso.
      A semelhança entre a fera do homem armado e o arredio de medo daquele incapaz promoveu estranhamento nos dois. De trás, o primeiro, não mais em posição de ataque, recuava incessante numa fuga momentânea de desespero, para o vácuo impróprio, de não haver nem corpo nem gente. E o antes cansado segundo homem, agora, rompia o frescurão da noite numa chama de energias, a vida e o poder lhe concedendo a mágica-triunfo do adeus, de poder partir e remoçar-se mesmo assim.

      Tudo porque as mãos tocaram-se, antebraços esbarraram-se, ombro em peito, costas em pernas, inteiro contato e o suor perpassado de algumas roupas à face com barba. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Eram sempre os mesmos homens

      Os homens sentavam-se em frente ao monumento central da praça e ocupavam as cadeiras e as mesas da calçada. Aquele café antigo, da Rua dos Comuns, não era popular senão pelos ferroviários exaustos que se amontoavam ali, mesmo só restando-lhes as forças de pensamento. Era que eles sentiam-se pouco, e logo se faziam luxo do café que tomavam, minguado, reclamado do tamanho, mas era café, num café, na praça. E eram duas ou três horas que ficavam, que durava o lanche enrolado em panos, que bateria o relógio se o tivessem no bolso de algum paletó. Arremedo de gente, dizia o garçom que ouvia lá de dentro de algum freguês: - arremedo!, e se sentia feliz, assim como os homens da ferrovia que precisavam estar na presença de outros para existir, para existirem, e sentiam-se felizes, todos ao mesmo instante.
      Um tal homem usando monóculo de fim de século, com lenço, ombreira, descendo a rua em direção a casa, num fim de tarde; então os homens entreolhavam-se a pensar que ele perdera o chapéu - paravam, calados, atentos, num suspense que precede o êxtase, gritavam: - Feito o amor, esquecida a cartola, corre, corre, Senhor, já é hora. E estapeavam-se a rir bem alto, movendo-se o corpo a todos os lados, esticando a cara para frente, procurando noutra gargalhada a mesma certeza do riso, da felicidade, do instante e daquele inteiro momento pleno. Era só o que tinham. - que escritorzinho eu sou -  Era tudo o que tinham! Era muito o que tinham! Era o mundo o que tinham! Era deles o mundo, não é mais, o deles morreu.