estou aqui não vê pois eu que ainda acredito dispara quando só tiver certeza
pois se sim porque disfarça na redenção do excomungado e com inimigo sob a mira
então seu dengo o faz por graça sendo pela fé que grito puxe o gatilho com frieza
ou agradece a quem lhe dê? e por meu santinho lascado para que não lhe apenas fira
uma desgraçada guerra venho lhe convercer contrário depois fuja à densa mata
pra travar durante os dias dessa sua tão grande tormenta reze por perdões alheios
esquecendo da miséria e do ódio que alimenta não me acuse de bravata
e desapego a rebeldias a cada dia do calendário que alguém lhe cobre os seios
que lhe mataram o pai já sei hereditariedade reafirmo os ideais da dança
e que vingá-lo disse "hei!" que do nome se supõe da nossa vida urbana e tola
será rancor o que apetece se o pai teve tal bondade de viver cedo e morrer à toa
e nada mais o esmorece? filho seu também dispõe? obcecados pelo som vingança
faça sim porque lhe cansa por fim já disse eu o que queria a despedida chegou já
ver toda sua esperança o horizonte já me aponta tudo dito aqui está
ser apagada pelo tempo seguindo o mar também me encontra que seja leve então seu fardo
sol chuva e firmamento quem lá disser que cria adeus à prole do soldado
terça-feira, 31 de maio de 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Universo cíclico
Lá, os objetos caem apenas por possuírem peso e já não valem mais que seu espatifar. Dos cacos remonta-se o ideal e do topo de uma pilha destes é possível observar o quão longe se está dos antigos altares. As venerações de um passado próximo dão vez às certezas e as indagações são tolices contestadas. Quem habita o novo lugar são os sonhos humanos, os quais também não valem mais que estilhaços, que ímpeto, ou que moral. Aliás, a perda dos valores foi um pré-requisito a todos os viajantes, bagagem desnecessária. Aqueles muito vividos percebem, logo de início, ser o momento de pisar no freio ou seguir consumindo os próprios males.
Há quem prefira tirar as almofadas para que não se desfaça o contato com a realidade. A opção de ficar coberto, esperando o fim do temporal, foi supressa depois do primeiro acidente. Porém, a incredulidade fez refém seus criadores, que agora torcem por um despertar coletivo sem nada poder fazer. É incrível que já passem dos milhares de usuários e tal utopia siga inabalada. Parece caótica sua desenvoltura performática, que mesmo obedecendo à lógica, se ramifica e bifurca. Com o passar do tempo exige mais esforço individual, mais concentração para manter os mesmos resultados, torna-se árduo prosseguir. Os desfrutes vão rareando, a fonte seca.
No primeiro fraquejar ocorre o desmonte: cacos e peças misturam-se derrubando o prisma do orgulho social. Faz chorar seus idealizadores. Então, a maior obra que ergueu o homem cai. Sem a possibilidade do exílio, retornam os mitos, os valores e as crenças. Os sonhos, tão seguros que são de si, tomam de volta seus ideais e anunciam-se como os salvadores. Humanos que são, servem apenas de bússola aos pioneiros que recomeçam a busca da liberdade que acabaram de rejeitar.
sábado, 7 de maio de 2011
Vai para o varal
Por ser o herói quem seu povo liberta
Quem sara a cicatriz ainda aberta no peito
E o vazio geral com esperança completa
Merece tanto quanto respaldo respeito
Pois que seu passado infortúnio garante
Gerar animosidade fundando um levante
Não quererá eternizar-se de tal feito
Ou ainda de maior qualquer descoberta
Sabendo sempre ser do povo o jeito
E a responsabilidade já aqui inquieta
Se conscientes contudo não agem
Se aceitação e pão levam a conformar
É que surge daí tamanha coragem
De um herói saber exigir seu lugar
Porém só embasado da total certeza
Porá palavras e não rifles à mesa
Gente cansada esperou nem estiagem
Saiu ainda chovendo para labutar
Agora reunida quer sem camuflagem
Ser reconhecida lá do posto que ocupará
À quem duvide minha plena sanidade
Da qual faço gosto até o dia que for pro céu
Lamento apenas vossa incapacidade
De compreender um verdadeiro cordel
terça-feira, 26 de abril de 2011
Vasto léxico de olho
O olho foi seco e viu de um tudo pela estrada.
Observou a paisagem, mirou o painel, tomou nota do clima e tempo; fitou de soslaio o espelho, assistiu as pessoas que cruzou, avistou lágrimas nas pessoas mas desconsiderou qualquer maior envolvimento. E como um ininterrupto operário-máquina prosseguiu, desprovido de descanso, alternando piscadelas e vistas grossas. Embaçou-se e foi dormir. Perdia sempre sua utilidade na falta de luz, perdia sempre para luz na utilidade.
Descrevendo sempre por completo cada quadro da sequência, atualizava instante a instante o perfil de objetos e seus meios-tons, a textura e temperatura. Não escapando nem tristeza de palhaço ou felicidade de poeta. Como fosse laser de três dimensões, ao apontar para minha volta recobriu as reentrâncias com presença de gente. E como um filme à meia-luz, era delicado suficiente para nunca exagerar, era exato no relato. Dependendo apenas de si o erro não teria margem.
Despossuía zoom, porém detinha definição e realce poderosos, tão, que distinguiu a nostalgia do romântico. A tela onde desenhava seus recortes e colagens era o dia-a-dia; filtrava-o de acordo com as condições de luz: claro, pretenção e escuro, tendência. Foi pré-análise de muitos beijos, e goteira de tantos outros adeus. E como foi de se esperar representou obras magníficas, que, talvez se fosse arquivo, as perpetuaria, pois não sendo, foi efêmero.
Inibiu-se diante às cores sólidas e também as ruídas demais. Isso, terrível que era, era como microscópio para achar planeta, subjugamento de seu potencial. Só podia ver inverso, e por isso, vez ou outra, eu distraía-me. Não adiantou colírio, lentes ou esfregada: quando cegou, cegou. Assim, nem retina, íris, córnea; pupila, cristalino e mácula foram tão findados em toda uma vida.
Não importou a lente convergente, multifocal ou progressiva, foi clara a divergência entre fitar e enxergar.
E também não importou mudar o foco para perto ou para longe, tornaria todas as vezes ao panorama.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
O sufoco
Apelo ao meu pulmão para que berre o maior pedido de socorro. Suplico ao silêncio que me dê forças suficientes para chegar ao próximo grito. Imploro diariamente, não que me ouçam, mas que haja outra voz. E há, sinto a vibração chegando. Posso sentir aqui das paredes de onde me aprisionam; também da lama que me prende os tornozelos; sinto que há alguém sufocado.
Que meus carcereiros não me repreendam ainda. Meus pedidos serão apenas intervalos entre as acomodações do cotidiano: serão espaçados instantes de liberdade. Sem mais implicações na nossa engenhosa estrutura de relacionamento humano. Apesar de querer estar enganado, não vejo porque dos conservadores temerem. Cuidam muito bem do cativeiro, sem que ocorra uma ruptura sequer.
Anda coração, chora! Soluça devagar em meio as suas lágrimas, mas me conta seu desespero, me narra sua tragédia, me explica a força que têm os seus medos. Intera-me da sua necessidade de fugir daqui, e, então, iremos juntos ao que é verdadeiro.
Fico em dúvida, há outra voz ou só ouço ecos de mim? Tem de haver, pois o que digo é puro. Tem de ser alguém lançando suplícios ao vento, pois se não, porque tenho os braços prontos para agarrá-los; e respondê-los. Preciso que haja alguém vivo aqui dentro e que me ajude a pedir resgate desse domínio sórdido.
É preciso haver no mínimo uma outra garganta. Pois já não tenho força para chamar. Minha energia se deteriora ao ver a politização do sentimento, ao ver a complacência com que assistem ao horror, e a rebeldia, tão aclamada outrora, servindo-se de jantar ao predador.
É preciso, eu preciso
É preciso, eu preciso
sexta-feira, 8 de abril de 2011
O sol, a praia, deixou só
O vento bateu foi para gente se secar!
As aves que voam só cumprem seu papel
Cabelo, chinelo e o protetor solar
O amor que sinto, só não faz falta para quem tem
Solidão é nossa amiga
bateu no peito e agora fica
A onda desmancha areia e traz anzol
Penteia e calça para não se queimar
Verão, bem-vindo à tristeza de minha inspiração
Mas faça um batuque na mesa
que eu não esqueço a beleza
de compor um simples samba tropical
Podendo eu voltar no tempo
Careca, descalço e negão
Um naufrágio já é audiência
Pescador que perdeu a licença
assiste passivo a televisão
segunda-feira, 14 de março de 2011
Amar na velocidade da luz
Voltou do trabalho mais cedo que o normal. O elevador subiu, 4° andar, porta, chave, geladeira. Caminhando até o quarto, - Amor, viu sapato no chão, roupa e traição. Tão veloz chegou a vontade de chorar, foi embora. Embora fosse ele homem ausente, o casamento foi há cinco meses. Na mesma noite o bar dava-lhe raiva. Tequila, sinuca, a vontade de trair, - mas como se já nada existe. Vodca, briga, expulsão, outro bar, boa noite, ombro para chorar. Já era manhã quando dormiu. Ainda de manhã acordou, ressaca, saída. E no trabalho, abandonado, dá-se conta de que já não passa de um alcoólatra .
Abandonada pelo estranho que afagou, desesperançou-se toda. Foi ao centro cirúrgico, vestiu jaleco, bisturi, - A paciente precisa de repouso, almoçou. Deu-se folga o resto do dia e foi ao parque ver o fim de tarde, veio o sol, vieram pombos, foi-se o sol e trouxe a lua. Era já por muitos redeixada. Antes, resolveu naquela manhã que iria mudar, mudou, não procurou se apaixonar, ofereceu-se ao marido da paciente, deu-lhe telefone, marcou na casa dela.
Reparou que o marido esticava o tempo necessário no hospital. Ouvia que dormia à cabeceira, acordava não o via, ligou certa vez atendeu a doutora, era o fim. Não se recuperou bem da cirurgia e usava cadeira de rodas. Doíam as costas, uma pílula, doíam os braços, uma pílula, doía o coração, antes de tomar as pílulas necessárias internou-se numa clínica. Depois de um ano, liberada. Depois de cinco, dá palestras a outros viciados. Conheceu nas reuniões um coração partido. E abandonado.
*Só um bolo de histórias concomitantes que alguém perdeu.
Abandonada pelo estranho que afagou, desesperançou-se toda. Foi ao centro cirúrgico, vestiu jaleco, bisturi, - A paciente precisa de repouso, almoçou. Deu-se folga o resto do dia e foi ao parque ver o fim de tarde, veio o sol, vieram pombos, foi-se o sol e trouxe a lua. Era já por muitos redeixada. Antes, resolveu naquela manhã que iria mudar, mudou, não procurou se apaixonar, ofereceu-se ao marido da paciente, deu-lhe telefone, marcou na casa dela.
Reparou que o marido esticava o tempo necessário no hospital. Ouvia que dormia à cabeceira, acordava não o via, ligou certa vez atendeu a doutora, era o fim. Não se recuperou bem da cirurgia e usava cadeira de rodas. Doíam as costas, uma pílula, doíam os braços, uma pílula, doía o coração, antes de tomar as pílulas necessárias internou-se numa clínica. Depois de um ano, liberada. Depois de cinco, dá palestras a outros viciados. Conheceu nas reuniões um coração partido. E abandonado.
*Só um bolo de histórias concomitantes que alguém perdeu.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Sentença da rotina
Canta. Pois não há no mundo voz
tão rouca que caiba em tão belo pescoço
que cobre a garganta cheia de nós
e cheia de nós que caimos no poço.
Pois se não vivo, morro
Chora. Para ver o desfile das mais belas
tempestades encantadas de harmonia
descendo abruptamente, apagando velas
e centelhas que faiscam da noite vazia.
Pois se não vivo, morro
Ora. Prontamente, não havendo miséria
à culpa divina se aplica tal merecimento e
atormentado da pobreza da humana epopeia
fatores todos levam ao nosso julgamento.
Pois se não vivo, morro
Ama. Prefere o poeta fazer.
Disposto a tudo olvidar por você.
Intérprete da alma; disse o condenado
Pois se: não vivo, amado.
tão rouca que caiba em tão belo pescoço
que cobre a garganta cheia de nós
e cheia de nós que caimos no poço.
Pois se não vivo, morro
Chora. Para ver o desfile das mais belas
tempestades encantadas de harmonia
descendo abruptamente, apagando velas
e centelhas que faiscam da noite vazia.
Pois se não vivo, morro
Ora. Prontamente, não havendo miséria
à culpa divina se aplica tal merecimento e
atormentado da pobreza da humana epopeia
fatores todos levam ao nosso julgamento.
Pois se não vivo, morro
Ama. Prefere o poeta fazer.
Disposto a tudo olvidar por você.
Intérprete da alma; disse o condenado
Pois se: não vivo, amado.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Confissão de uma péssima testemunha
Não era um olhar cativante, indecifrável ou de pura beleza; eram Olhos aqueles olhos.
Nunca entendi como dizem que olhares podem dizer tanto - e agora duvido que olhares possam, até mesmo, chegar a se expressar - pois diante dos dois olhos que encontrei não acredito mais na comunicação humana.
Me distraem as pessoas com seus destinos e seus modos diferentes de andar, me distrai tanta coisa pelo caminho que faço para casa, que vou esquecendo as cores e relevos, mas tento não esquecer daqueles olhos. Por isso escrevo descrevendo o que vivi, por isso não me aguento sentir emoção tão grande sozinho, por isso me atrevo mesmo sabendo que fazem poucos minutos e já sinto que não se poderá mais, na vida, reescrevê-los.
Me distraiu o tempo que fiquei inerte ao sair da exposição - aberta à qualquer um e deserta de qualquer outro - e não conseguia me lembrar de minutos anteriores. Lá vi quadros e rabiscos nas paredes, colagens e texturas, mas me intrigaram mesmo desenhos de um João Maria; talvez, pela crítica social embutida numa caricatura da cidade. Parado e como sempre um pouco distante dos desenhos (ou pinturas, não conheço sequer isso de Arte) observava as imagens de pessoas gigantes e carros anões, estes nas calçadas e aquelas no meio da rua. De um dos desenhos mal lembro o nome.
Me distraem compromissos e as sujeiras ribeirinhas, me distrai tudo; e tudo não quer que eu lhe conte de tais olhos. Olhos que pertenciam à uma morena, mas dela também já esqueci para dedicar-me a recuperá-los. O quadro tinha nem quarenta por quarenta centímetros, a tela era um papel rasgado de um desenho maior. Porém os Olhos mediam mais; tais, mediam não-sei-quanto. Tentei pôr todas as sabedorias que tenho empilhadas, mas eles mediam mais: Mal cabiam na exposição, quiçá no quadro.
E me distraí outra vez por pensar que dos meus olhos viria choro - não veio. Os Olhos, que com os meus vi, eram a prova viva do que me diziam; eles me contavam algo e em seguida explicavam com detalhes os argumentos dos quais eu já nem me lembro, pois me distraem os próprios olhos. Imaginei, do artista, uma certa petulância ao expor olhos, assim, sem aviso prévio. Quis reclamar. Olhos me fizeram esmorecer a revolta.
Vão fugindo da minha lembrança porque agora já faz horas que os vi. Talvez, um pouco mais e até esqueça deles. Sempre me distraio quando escrevo, de modo que findo por esquecê-los, quando justamente faço isso pra eternizá-los.
E que agora, sem mais tardar, me acusem da miséria humana, de haver no mundo poluição tamanha ou da efemeridade dos sentimentos; e que me denunciem de tudo isso, mas sem esquecer de acrescentar uma última culpa: O crime de não contar a cada um que vive, como eram esclarecedores, sinceros, solidários e usurpadores, aqueles olhos. A tal ponto que roubaram de mim qualquer melhor descrição, roubaram todos os seus detalhes de minha lembrança, e também as minhas forças, que sem elas já nem me aguento vivo.
Nunca entendi como dizem que olhares podem dizer tanto - e agora duvido que olhares possam, até mesmo, chegar a se expressar - pois diante dos dois olhos que encontrei não acredito mais na comunicação humana.
Me distraem as pessoas com seus destinos e seus modos diferentes de andar, me distrai tanta coisa pelo caminho que faço para casa, que vou esquecendo as cores e relevos, mas tento não esquecer daqueles olhos. Por isso escrevo descrevendo o que vivi, por isso não me aguento sentir emoção tão grande sozinho, por isso me atrevo mesmo sabendo que fazem poucos minutos e já sinto que não se poderá mais, na vida, reescrevê-los.
Me distraiu o tempo que fiquei inerte ao sair da exposição - aberta à qualquer um e deserta de qualquer outro - e não conseguia me lembrar de minutos anteriores. Lá vi quadros e rabiscos nas paredes, colagens e texturas, mas me intrigaram mesmo desenhos de um João Maria; talvez, pela crítica social embutida numa caricatura da cidade. Parado e como sempre um pouco distante dos desenhos (ou pinturas, não conheço sequer isso de Arte) observava as imagens de pessoas gigantes e carros anões, estes nas calçadas e aquelas no meio da rua. De um dos desenhos mal lembro o nome.
Me distraem compromissos e as sujeiras ribeirinhas, me distrai tudo; e tudo não quer que eu lhe conte de tais olhos. Olhos que pertenciam à uma morena, mas dela também já esqueci para dedicar-me a recuperá-los. O quadro tinha nem quarenta por quarenta centímetros, a tela era um papel rasgado de um desenho maior. Porém os Olhos mediam mais; tais, mediam não-sei-quanto. Tentei pôr todas as sabedorias que tenho empilhadas, mas eles mediam mais: Mal cabiam na exposição, quiçá no quadro.
E me distraí outra vez por pensar que dos meus olhos viria choro - não veio. Os Olhos, que com os meus vi, eram a prova viva do que me diziam; eles me contavam algo e em seguida explicavam com detalhes os argumentos dos quais eu já nem me lembro, pois me distraem os próprios olhos. Imaginei, do artista, uma certa petulância ao expor olhos, assim, sem aviso prévio. Quis reclamar. Olhos me fizeram esmorecer a revolta.
Vão fugindo da minha lembrança porque agora já faz horas que os vi. Talvez, um pouco mais e até esqueça deles. Sempre me distraio quando escrevo, de modo que findo por esquecê-los, quando justamente faço isso pra eternizá-los.
E que agora, sem mais tardar, me acusem da miséria humana, de haver no mundo poluição tamanha ou da efemeridade dos sentimentos; e que me denunciem de tudo isso, mas sem esquecer de acrescentar uma última culpa: O crime de não contar a cada um que vive, como eram esclarecedores, sinceros, solidários e usurpadores, aqueles olhos. A tal ponto que roubaram de mim qualquer melhor descrição, roubaram todos os seus detalhes de minha lembrança, e também as minhas forças, que sem elas já nem me aguento vivo.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
E finalmente, amar deveria ser coisa toda
Contar a alguém, durante a madrugada, o amor que se sente deveria ser o amor na mais pura essência; e no mais puro aroma. Contar ao mesmo alguém que o amor só vale quando é amado, porque não basta ser dito, é dizer a ele que amor demais está sendo feito; amor demais, que não existe, pois amor sendo essência está sempre na medida exata: não transborda.
Não transborda, mas também não cabe; corpo humano é tão pequeno pro amor na mais pura essência. Corpo humano cabe nem mais que um trezentos quilos, amor sendo toneladas, estoura corpo humano e o deixa em pedaços quando teimam em pô-lo num só peito de homem; Corpo humano, dessa maneira, cabe não mais que um amor. Cabe não mais que um amor, pois um amor precisa de dois corpos; corpo humano é feito então pra caber meio amor.
Meio amor é o meu amor. A metade outra é sua. Amor que quis por num só peito meu de homem, era pra que um dia pudesse dar a alguém; mal sabia eu que nunca pode-se pôr amor em peito de um só. Mas tive sorte de aparecer um corpo humano outro a se juntar ao meu.
Considerando o contrário do sim o não e o do não o sim, amor só pode ser talvez. Talvez de tão contrário a si, só possa ser o mesmo amor. Assim, o peito meu estala de amor; assim também, o peito meu quer mais amor pra ser estalado. Quando corpo humano explode de amor, só ele sabe o que sentiu, e apesar de tal explosão ficar marcada no corpo, o amor ninguém saberá que foi. E nunca corpo humano sentirá o mesmo amor.
Tal amor a qual me refiro, dá-me uma beleza branca, não sei nem se sabe o que me causa; mas tal amor é o da mais pura essência - igual só há dentro a um templo maia - e quero mais. E, um dia, será ela a culpada quando meu corpo humano explodir e, estalado, espalhado e jazido, me encontrarem. Mas a culpa que ela terá será só digna de contemplação; será culpada de amar sem fim. E se julgada responsável por explodir peito de homem com tanto amor, condenada estará a fazer do mesmo homem o mais feliz da espécie.
*
A tempestade relampeja e com seus fechos de luz, que me acordam na noite, faz aumentar a tensão que é escutar seus rugidos. Mas tempestade não assusta; tempestade não derruba amor.
Não transborda, mas também não cabe; corpo humano é tão pequeno pro amor na mais pura essência. Corpo humano cabe nem mais que um trezentos quilos, amor sendo toneladas, estoura corpo humano e o deixa em pedaços quando teimam em pô-lo num só peito de homem; Corpo humano, dessa maneira, cabe não mais que um amor. Cabe não mais que um amor, pois um amor precisa de dois corpos; corpo humano é feito então pra caber meio amor.
Meio amor é o meu amor. A metade outra é sua. Amor que quis por num só peito meu de homem, era pra que um dia pudesse dar a alguém; mal sabia eu que nunca pode-se pôr amor em peito de um só. Mas tive sorte de aparecer um corpo humano outro a se juntar ao meu.
Considerando o contrário do sim o não e o do não o sim, amor só pode ser talvez. Talvez de tão contrário a si, só possa ser o mesmo amor. Assim, o peito meu estala de amor; assim também, o peito meu quer mais amor pra ser estalado. Quando corpo humano explode de amor, só ele sabe o que sentiu, e apesar de tal explosão ficar marcada no corpo, o amor ninguém saberá que foi. E nunca corpo humano sentirá o mesmo amor.
Tal amor a qual me refiro, dá-me uma beleza branca, não sei nem se sabe o que me causa; mas tal amor é o da mais pura essência - igual só há dentro a um templo maia - e quero mais. E, um dia, será ela a culpada quando meu corpo humano explodir e, estalado, espalhado e jazido, me encontrarem. Mas a culpa que ela terá será só digna de contemplação; será culpada de amar sem fim. E se julgada responsável por explodir peito de homem com tanto amor, condenada estará a fazer do mesmo homem o mais feliz da espécie.
*
A tempestade relampeja e com seus fechos de luz, que me acordam na noite, faz aumentar a tensão que é escutar seus rugidos. Mas tempestade não assusta; tempestade não derruba amor.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
LXIX
A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. Você aposto que nem sonhava comigo. Entretanto, eu quase que ouvia a sua respiração. [...] O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; — com esta diferença que o mar é estúpido, bate sem saber por que, e o meu coração sabe que batia por você.
Carlos Maria
[adaptação]
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Da sobremesa, a raspa da lata
Pude ver no decorrer dos planos que o melhor plano não há
e ver também, em cada um, a realização
Posso ver que dos sonhos nascem frustrações ao seu fim
porém o seu durante é o que não se encontra em nenhum lugar
Se de cada plano seguiu-se uma viagem, viagem todas foram boas
e melhores foram quanto mais duraram - pois não há forma outra de calcular
Valor dos sonhos. Qual maior? engana-se quem calcula
sonho é tudo; e sonhe tudo
Se achar, que da vontade de comer, o melhor for a comida
perderá o encanto que o aroma roubado da panela lhe dá
Posso assim ver então os caminhos da vida, caminhos apenas; não há partida
são como vontades de comer; coma-os e não mais os terá
Pode deduzir uma viagem se houver destino
Pude deduzir que meu destino era a viagem
e nela me encontro agora; na viagem da minha vida
Há quem acorde no meio da noite de um sonho perfeito
acordo de cada sonho com uma noite perfeita a me olhar
Poderá amar e esperar ser amado; ou como eu: amar e esperar amar
assim, amor é emprestado - dado quando quer ser devolvido
Isso é mania do destino, sempre a nos entregar algum coração ao fim das contas
mania minha é entregar coração a quem me tem agora
Pude esperar de quem me deu a mão, que me desse logo a outra
mas antes do encontro dei os braços e as pernas, coração, alma e canela
Posso do tempo nada esperar, já que a ele ando nada devendo
pois se vier, logo e de repente, me levar... pelo mundo terei ficado
Faço parte do mundo porque sempre o quis pra mim; do mesmo jeito:
fará parte do futuro pois sempre o quis perto de ti
Poderá também, a qualquer momento, ver a viagem maior que a chegada
e se reconher que o caminho já é bonito por si só: será então só alegria!
Tas a ver a linha do horizonte?
A levitar, a evitar que o céu se desmonte
e ver também, em cada um, a realização
Posso ver que dos sonhos nascem frustrações ao seu fim
porém o seu durante é o que não se encontra em nenhum lugar
Se de cada plano seguiu-se uma viagem, viagem todas foram boas
e melhores foram quanto mais duraram - pois não há forma outra de calcular
Valor dos sonhos. Qual maior? engana-se quem calcula
sonho é tudo; e sonhe tudo
Se achar, que da vontade de comer, o melhor for a comida
perderá o encanto que o aroma roubado da panela lhe dá
Posso assim ver então os caminhos da vida, caminhos apenas; não há partida
são como vontades de comer; coma-os e não mais os terá
Pode deduzir uma viagem se houver destino
Pude deduzir que meu destino era a viagem
e nela me encontro agora; na viagem da minha vida
Há quem acorde no meio da noite de um sonho perfeito
acordo de cada sonho com uma noite perfeita a me olhar
Poderá amar e esperar ser amado; ou como eu: amar e esperar amar
assim, amor é emprestado - dado quando quer ser devolvido
Isso é mania do destino, sempre a nos entregar algum coração ao fim das contas
mania minha é entregar coração a quem me tem agora
Pude esperar de quem me deu a mão, que me desse logo a outra
mas antes do encontro dei os braços e as pernas, coração, alma e canela
Posso do tempo nada esperar, já que a ele ando nada devendo
pois se vier, logo e de repente, me levar... pelo mundo terei ficado
Faço parte do mundo porque sempre o quis pra mim; do mesmo jeito:
fará parte do futuro pois sempre o quis perto de ti
Poderá também, a qualquer momento, ver a viagem maior que a chegada
e se reconher que o caminho já é bonito por si só: será então só alegria!
Tas a ver a linha do horizonte?
A levitar, a evitar que o céu se desmonte
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
É bobagem não aceitar
Bobagem a força que fazemos quando queremos ter uma ilusão
futuro é ilusão; quando chega nem fazemos força para ver que nunca houve
Ficar para sempre aqui ou ali, mas pra sempre. Ficar, só ficar já deve ser
bobagem é, sem abrir a mente e a lente, viajar o mundo
Bobagem ser humano e não tentar de tudo
não perguntar ao mudo se ele disse ao surdo
que o amor se encontra no aroma de cada bobagem.
Bobagem a tal chance única, de ter na vida um só encontro
pessoa certa para uma vida, pessoa que não dará a despedida
Bobagem nossa achar o amor um milagreiro: engenhoso artesão
que transforma lágrima em sorriso; a princesa numa rã
Bobagem que digam não as oportunidades.
Escolha feita não tem volta, mas... bobagem! tem desculpas.
Bobagem não ser de todo mundo, e pertencer a só um
deve mesmo ser bobagem viver sem se entregar à alguém
Bobagem a solidão que nos envolve, e complica o mundo
Bobagem uma canção que diga tudo
E ter pra não usar, bobagem: sair pra não jantar.
Bobagem mais que tudo é ser eterno
para um dia não ter vontade de fazer bobagens
Bobagem maior que o eterno
é não perdoar e depois sentir saudade!
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Enclisados
Viu-me
Encantou-se
Falou-me
Beijou-me
Amamo-nos
Calamo-nos
Vi-te
Ecitei-me
Respondi-te
Beijei-te
Ficamo-nos
Calamo-nos
E depois de calados, foste embora e fiquei inerte.
Mas o meu samba mais bonito você não ouviu.
Encantou-se
Falou-me
Beijou-me
Amamo-nos
Calamo-nos
Vi-te
Ecitei-me
Respondi-te
Beijei-te
Ficamo-nos
Calamo-nos
E depois de calados, foste embora e fiquei inerte.
Mas o meu samba mais bonito você não ouviu.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Pra eu te amar
Basta eu dormir bem risonho e cansado de gargalhar
a madrugada cobrir-me lisa servindo-me de lençol
os sonhos serem inocentes sem nenhum desejo
acordar disposto e lembrar e te contar da noite
Basta o sol nascer bem cedo e iluminar bem quente o meu café
o suco estar docinho e amarelo de frescura
o pão não engordar com a manteiga que não mata
olhar-te bela comendo as uvas após o sono
Basta que ninguém colhas as flores dos jardins
que as abelhas proliferem de girassol em sol
e a altura da grandeza não me impeça de subir
o caminho ser alegre cheio de colorido
Basta que ninguém colhas as flores dos jardins
que as abelhas proliferem de girassol em sol
e a altura da grandeza não me impeça de subir
o caminho ser alegre cheio de colorido
Basta ouvir notícias simples de uma nova exposição
o trabalho não cansar e o salário que rendesse
ser convidado pra uma festa e levá-la junto
a tarde não chover nem tão pouco acalorada
Basta o tempo que passar parar nas partes boas
as pessoas respeitarem a minha vontade de correr
todos os prédios se pintarem de azul
e voarmos a um pé de altura
Basta o jantar que mais caro fosse
só valesse a pena pela companhia minha
o passeio ser a pé pra descansar do tempo atoa
o céu estar desestrelado e que a lua soberana grite:
- Basta!
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Corpo e cores no deserto
E se meus olhos escorrem é porque declamam,
exclamam a dor que é te amar e não ser amado
coitado de mim - ouvi dizer alguém feliz
e quis por vezes muitas te encontrar em lugar aberto
deserto de valores, crenças, julgamentos e histerias
queria, lá, poder ter seu amor e as suas cores místicas;
E se meus lábios se ondulam é porque não acreditam
palpitam que você voltará em breve para mim
assim que alguém feliz resolver me dar a oportunidade
de a verdade dizer a você. O deserto então já será um lugar repleto
não de teto, nem paredes, nem amor e nem amores - cores é que terá
e será não só amarelo, mas o colorido me fará chorar;
E se meus braços não te podem levar é porque meu peito urra
empurra e te carrega de um jeito tão suave quanto o vento
no momento penso estar de novo naquele deserto de ausência
aparência de um lugar vazio, mas que não precisa ter ninguém
pois bem chegaremos e nosso abraço fará encher de outras cores o lugar!
exclamam a dor que é te amar e não ser amado
coitado de mim - ouvi dizer alguém feliz
e quis por vezes muitas te encontrar em lugar aberto
deserto de valores, crenças, julgamentos e histerias
queria, lá, poder ter seu amor e as suas cores místicas;
E se meus lábios se ondulam é porque não acreditam
palpitam que você voltará em breve para mim
assim que alguém feliz resolver me dar a oportunidade
de a verdade dizer a você. O deserto então já será um lugar repleto
não de teto, nem paredes, nem amor e nem amores - cores é que terá
e será não só amarelo, mas o colorido me fará chorar;
E se meus braços não te podem levar é porque meu peito urra
empurra e te carrega de um jeito tão suave quanto o vento
no momento penso estar de novo naquele deserto de ausência
aparência de um lugar vazio, mas que não precisa ter ninguém
pois bem chegaremos e nosso abraço fará encher de outras cores o lugar!
domingo, 12 de dezembro de 2010
Soneto del vino
Em que reino, em que século, sob que silenciosa
conjunção dos astros, em que secreto dia
que o mármore não gravou, surgiu a fabulosa
e singular idéia de se inventar a alegria?
Jorge Luis Borges
Jorge Luis Borges
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Monólogo sem falas ou Monólogo do não amor
Acho que não deve ser de preocupar, logo passa, e se não passa, eu cuido até melhorar; e se não passa, o tempo passa e o leva, seja ele o que for. Não dizem?, "o tempo leva tudo". Mesmo assim tenho dúvidas, pois o tempo passa e ele permanece, come e engorda; mesmo assim tenho dúvidas, que agora são menores: agora as dúvidas são sobre o que ele quer; sobre o que ele quer tirar de mim, o que quer dar para mim. O tempo vai passando e ele ainda não foi.
Acho também que ele é forte, veio forte e me derrubou. Assustado, vi que depois me deu a mão e me levantou; assustado, dei a mão e ele me jogou mais forte ainda para o outro canto. E depois do susto o coração não parou de bater acelerado, é como que tem alguma coisa prolongando o meu estado de adrenalina; prolongando a adrenalina que não me acelera, mas, sim, a que me deixa calmo para perceber o que tenho feito, que o tenho ignorado. E ele, tão próprio de si, me ensina a cada dia que ele é só um nome que dou para o que sinto. Ele é só o que tenho para tentar dizer: - sim!, para aproveitar, para ver sair de mim a todo instante; o que sai de mim a todo instante é alguém que tem de saber entendê-lo. Mas não pode sozinho.
E esse alguém sou eu. Sou o que saio de mim, para tentar explicar-me a mim mesmo esse instável que não passa; esse instável que não passa. E tento. E fico remoendo. E fico desenhando suas estruturas, suas ruas e prédios, suas paradas e esquinas; e as suas emboscadas me emboscam toda vez que ele aparece: alí. De pé e penteado. Com a audácia que só ele pode ter, vem correndo de braços abertos, e sorrindo com os maiores dentes do mundo: vem me dizer que não é o amor! E diz de novo que não é amor!
Paro. Fecho os olhos. Como assim não é o amor? Pois se não é, o que é?
Não adianta que ele corre. Ele sempre tem saída, e nunca me responde. O tempo já vai passar novamente, já não vai levá-lo. E ele já vai me jogar de um lado para o outro, de uma esquina para outra, me arremessar pelas vielas. Vai engordar, ficar pesado e ficar. Seria mais fácil se fosse paixão, vergonha, ódio, amor, sentimento, ou objeto; mais fácil ainda se fosse segredo. Mas os meus olhos arregalam-se, e se o encaram é para tentar arrancar uma resposta; como não podem gritar de desespero, então choram. Mas não é segredo, e todos sabem e deveriam saber.
- Porque teima em dizer que não é o amor, se me acorda no meio da noite e me diz nos sonhos que é maior que tudo? Por que teima em doer dentro do peito, se já me disse que não é o seu papel fazer isso? Porque não é o amor? Como não é amor, se cada vez que olho pelo buraco do peito está maior e mais firme, e crescendo e crescendo e me olha com cara feia, não quer sair. E nem quero que saia. Pois então me diga o que é.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
A recompensa
Agora sim lhe entendo Grande Amor
Vejo como o procurei em vão
Em sua busca, quanto não
Obtive seguido de dor
E que exista em tu o infinito
Posto que só o impossível te coube
Não me diz e nem me ouve
Mais que a ti, não há nada mais bonito
Por isso não me passaste perto
Vi de longe tua despedida
Mas sei que agora
é já sem hora
Pra lhe esquecer nessa vida
E me dar o fim como certo
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Modelo de amor não deu certo
Para amar Mariana bastou-me estar distraído
Fiz um desenho com a mão errada
Disse que ia pra longe, voltaria logo
Passou o tempo esqueci
Para amar Beatriz foi tiro no escuro
Fiz um desenho com a mão errada
Disse que trabalhava sem hora
Bati o ponto a tempo
Fiz um desenho com a mão errada
Disse que ia pra longe, voltaria logo
Passou o tempo esqueci
Para amar Carolina procurei a beleza
Fiz um desenho com a mão errada
Disse que ja tinha outro
A beleza sumiu depois
Para amar Juliana o dia nasceu amarelo
Fiz um desenho com a mão errada
Disse que gosta do que eu também
Fui forçado ao descaso
Para amar Beatriz foi tiro no escuro
Fiz um desenho com a mão errada
Disse que trabalhava sem hora
Bati o ponto a tempo
Para amar Cristina toquei um fado
Fiz um desenho com a mão errada
Disse que cantava a morte
Vestiu de preto o corpo todo
Para amar Colombina colei o desenho
Escrito Pierrot á procura debaixo
Disse ao outro que pode chorar
Disse ao outro que pode chorar
Arlequim doído pegou o lenço
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Certo dia o ouvi
- Olha flor, antes de tirar-te o chão quero dizer uma verdade ou outra. Saibas que daqui do jardim tua beleza não é a que mais desperta o interesse dos outros; tens o cheiro um tanto enjoativo, daqueles que basta sentir uma vez pra querê-lo cada vez mais longe; tuas pétalas estão manchadas em preto; e além de teu vermelho estar sujo feito terra, tu só tens um espinho bem pequeno. Como pode, uma flor só ter um espinho? [...] Quero também dizer, oh tua flor, que na tua idade deverias estar radiante como a luz que atravessa as nuvens; deverias ser a mais procurada da região, e quando encontrada: Deverias esgueirar-te e seduzir a quem quer que fosse; deverias, tua pequena murcha, nesta mesma idade, ser disputada por todos os insetos e proliferar-te pelos campos mais diversos, fazendo um mundo de seus descendentes. Porém, ficas aí. Como esperas que alguém te queira assim? [...] E mais um posto: Venho me perguntando o motivo de estares tão sozinha nesse canto do jardim. Pareces uma planta repulsiva, a qual nenhuma outra se atreve nascer por perto. Serás tão egoísta a ponto de não dividires os minerais? Transmites uma solidão que nem sei explicar: Todos do outro lado estão comemorando, polinizando, respirando; e tu estás aqui debaixo desta árvore que nem se importa contigo. Achas mesmo que no mundo haja um que te queira? [...] Pois bem rosa, vou dizer-te de uma vez o que quero. Sabes bem e mais que ninguém, que ao dar-te, estarás morta; ao puxar-te do chão será seu fim e não mais voltarás a florecer, serás já sem vida neste instante. E por não ser meu intuito dizer que meu amor começará morto como a rosa dada, que será inevitável, assim como tu secares e murchares, que ele se esvaia depois de um tempo, peço então para ti, oh flor: Faça-te imponente, enfrente-me a tal altura e não te rendas enquanto ainda tiveres vida. Atinja-me, pequena planta, com seu espinho único; e faça do meu gesto uma vitória épica para que me tenham, um dia, gosto.
E sem esperar pela resposta cortou-lhe o caule de uma só vez. Tocou a campainha e então eu pude ver o rosto da voz. Ele a entregou-me, mas eu não o quis. Fechei a porta, e sentada junto a ela, ninei a rosa em meus braços.
E sem esperar pela resposta cortou-lhe o caule de uma só vez. Tocou a campainha e então eu pude ver o rosto da voz. Ele a entregou-me, mas eu não o quis. Fechei a porta, e sentada junto a ela, ninei a rosa em meus braços.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Fases
A história de desencontros
Começa quando ele a quer, porém não toma providência alguma. Só faz pensar, na menina de flores, por todo o dia e por toda noite; e à tardinha inclusive. Nunca amou ninguém e não sabe por onde começar. Assim, relendo poemas de amores mal iniciados e de declarações frustradas, encontra motivos pra querê-la mais; imagina o amor que a daria.
Derrete-se de paixão.
Ela, tão sentimental quanto ele: amou muito por tempos atrás e se conseguira finalmente ser feliz, viu que deu muito trabalho. O conhece então com essa premissa de que não mais se entregaria. Passa os dias então o esperando para dar-lhe o que ele quer de uma vez. E pra não ter titubeios nem outros intermédios com joguinhos de criança, usa-o.
Entrega-lhe um beijo.
A transição
Se dá quando ele é surpreendido, apesar de ter sonhado com isso, pelo beijo da menina branca. Já sabendo que é amor, se torna inteiro trovador; poeta, florista e compositor. Mas pelas reações dela não entende o que faz errado; porque não é igualmente retribuído? Percebe-se que anda exagerado e promete conter-se. Apesar da tortura que e amá-la, não diminui nada no carinho dado.
Derrete-se na dúvida.
Satisfeita pelo beijo conseguido, tenta fugir da história outrora vivida. De início o ignora e pede pra que não exagere na tentativa de iludi-la, apesar de saber no fundo que ele é sincero. Teme se doar e não receber carinho de volta. Apesar da resistência percebe a paixão que chegou para ela. Define as regras e diz como ele deve agir a partir dali. Em seguida aceita, com o pé atrás, o amor que a inquieta.
Entrega-lhe o coração
Tempos de fim
É porque negou de todas as maneiras, no início, mas cedeu aos pedidos e conformes dela. Longe da caneta e do violão, abre mão de si. Diz que a ama quando pede e se não pede fica quieto. Não perdeu o amor, mas não tem vontade de dizer; não passa noites em claro pensando nela; e reaprendeu a dizer não. Parece estar mais ausente que nunca. Fica dias sem chamar e quando chega, logo vai.
Derrete-se quando convém.
Finalmente, como queria, ele é perfeito. Foi difícil, mas agora acabaram as gracinhas dele. Sentia de dentro um calor indescritível que a apavorava, mas não recebe mais flores nem é musa de poemas, o calor se esvai. Aquieta-se enfim, pensando no que faz para perder o homem que ama. Por não o aceitar como o faz parecer, agora chora por ele não ser o cara inventivo, que nunca se ia.
Entrega-lhe o que mais ninguém tem.
domingo, 3 de outubro de 2010
O beu cabelo
é que quando você aparece
vem-me dizer nada e já enlouquece
faz-te pequena e desengonçada
tem a cabeleira inteira embolada
é que fecha os olhos toda chorosa
vem-me bater a mão de unha pintada
faz-te arrependida da fúria cantada
tem a cabeleira que se anuncia prosa
é que beija usando a mão delicada
vem-me e arrepia sempre do mesmo jeito
faz-te em pedacinhos que eu vou catar
a cabeleira é pra ser cheirada
a cabeleira é pra ser avistada
a cabeleira da minha amada
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Me, explico vivo
e se de tanto naufragar, enjoei
depois de tanto procurar, não achei
sua cara linda a pintar, me neguei
ir sem você navegar!
e se de tanto querer, me perdi
dentro do seu calor, o que eu vivi
me serviu de lição pra contar, por ai
onde você ancorou!
e se hoje não te tenho, mais
vale a pena lembrar, de você
quero um mergulho no mar, pra te ver
quando poema secar!
depois de tanto procurar, não achei
sua cara linda a pintar, me neguei
ir sem você navegar!
e se de tanto querer, me perdi
dentro do seu calor, o que eu vivi
me serviu de lição pra contar, por ai
onde você ancorou!
e se hoje não te tenho, mais
vale a pena lembrar, de você
quero um mergulho no mar, pra te ver
quando poema secar!
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