segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Tristão e Isolda
Soa uma nota,
a cada gota que pende da corda
tensionada no quintal
ela passa a noite inteira lá,
esperando quem vier pra resgatá-la.
Mas não vieram não.
O sereno as faz
pendurarem-se todas pela corda
ameaçam queda, toda vez que lhe tocam
a gota cai e a linha vibra,
posso ouvir na barriga que já é algum som.
E é outra gota e é outra nota,
despencando do varal, que me molha
Quando pode, sem que a observem,
recolhe uma ou duas gotas que prestem
armazena em um frasco e o tampa.
A menina é quem cuida, todos os dias
das gotas que moram no varal
Faz questão de coletar uma a uma,
quando é de manhã ainda
e guarda consigo bem escondido
para que não as descubram
durante o dia as carrega aonde vá
E lá vai sempre muito bem nessa tarefa,
mesmo com esbarrões que leva
não deixa nunca seu pote virar,
hora ou outra derrama um pouco,
mas é tão pouco, não se percebe
com a roupa logo trata de enxugar.
Contudo, chega ao fim a noite
repousa vagarosamente,
em sua cama, a única que tem,
mantém-se firme,
mas num leve golpe do cansaço
é desarmada pela lembrança,
se descuida
e derrama finalmente seu pote de gotas
que dizem ser de lágrimas.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
quem meneia? o braço firme de punho apertado é forte e meneia
o esqueleto prestes a se quebrar, e a água transbordando do copo
na areia a derrapar o carro que não freia, e o foco
vejo seus olhos dizendo que sim, enquanto eu digo não
quem ressona? do peito esculpido e bruto apesar da dureza ressona
quem ressona? do peito esculpido e bruto apesar da dureza ressona
a coisa elétrica toda ela esperneia, quer prosseguir na certeza
da escassez de argumentos, da força que imprime a leveza
ouço teus lábios mostrando que sim, enquanto eu vejo não
quem condena?
o homem que reprime os impulsos, ou os freios?
o garoto apenas? a mulher imprópria já desfeita dos ombros caídos?
quem condenaria a distância, vivendo o próximo impossível
o afasto dos gostos dos corpos, a resposta
não eu nem você
da escassez de argumentos, da força que imprime a leveza
ouço teus lábios mostrando que sim, enquanto eu vejo não
quem condena?
o homem que reprime os impulsos, ou os freios?
o garoto apenas? a mulher imprópria já desfeita dos ombros caídos?
quem condenaria a distância, vivendo o próximo impossível
o afasto dos gostos dos corpos, a resposta
não eu nem você
domingo, 28 de abril de 2013
O galo que tentou mudar seu turno, para que não cantasse mais pela manhã
Tal galo espinafrante de um frondoso cacarejo espanta
o arredio de manhã que nasce, quando foge ao galinheiro e, quieto,
lá também não canta, assim sempre silencia o seu passar do tempo.
E o porco dorme à lama sem despertar, pois o escuro céu se agiganta
triunfante, ainda é tão gritante a luz do sol que se arrebenta
triunfante, ainda é tão gritante a luz do sol que se arrebenta
muitas horas do dia passam, o sol retorna ao fim da curva e num momento
temo nunca mais reacordar. Misterioso é o som de galo que não ouço mais.
De repente, ao raso voo de espanadas, asas violentas se acomodam
De repente, ao raso voo de espanadas, asas violentas se acomodam
no mais claro posto da estalagem, do alto é o galo e teu encanto indiscreto
cacarejo acomodado na garganta, há muito na espera de tornar
eis lá ele inflado, eis lá do alto meu bom galo a concentrar, é três é dois
bem quando, é geral o esbravejo, fecham-lhe o cerco talvez dúzias de animais
- é noite, galo, aqui não cantarás, parte já dai para bem longe, que não morres mais!
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Razões
O homem é japonês, em todo magro corpo, transparece seu incomodo, ele treme. Um tanto depois ele caminha numa área com árvores a buscar sombras para sossegar, contudo não há jeito de consegui-lo, devido ao sol que as ilumina. Ele procura água também. Ele transporta um suporte para espadas antigas do século passado sem espadas antigas. Sua roupa semelhante as de samurais e ninjas mais que revelam sua origem, pois estando rasgadas, sugerem ainda alguma batalha com lâminas e quedas ao chão, há sangue nos panos que envolvem e formam sua trouxa na qual contém pequenos alimentos. Porém nunca foi guerreiro ancestral, essa minha história é recente, de homens incomodados buscando voltar ao lugar onde estiveram sempre. Contudo o japonês sabe enorme sua culpa, a família incapaz de perdoá-lo entristece-se diariamente por não poder também protege-lo. Animais observam estranho habitante adormecido entre folhas caídas sem produzir sons a ponto de despertá-lo. Ao seu redor agora estão uma espada, uma bacia com água daquela região, e objetos pessoais como foto, algum colar de linhas torcidas e um cantil. Quando é de manhã ele observa por bastante tempo as árvores e atira pedras com as mãos para espantar os pássaros das copas, que retornam logo, pois ali vivem. Ele perfura o corpo com a espada, morre em segundos.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Um pouco dos quandos, dos comos, dos sonhos
Quando o mundo nasceu, durante a invenção do tempo, decidiu
que giraria todo dia em torno de si mesmo, na tentativa eterna de se refrescar,
pois fora condenado, por cláusula carimbada, a girar também ao redor do sol, e
isso o fazia xingar constantemente os deuses. Assim que, como sempre nos
parece, nascia culpado pela própria e única existência – e pior, já julgado e condenado.
Dentro desse mundo, que, apesar do astronauta e do horóscopo, se limita à
Terra, fez nascer-se ainda a vida, como forma de planta, de bicho e depois de
gente.
E esse é um texto sobre a vida no estado de gente.
As pessoas na natureza, nos abrigos, nas aldeias, nas
comunidades, nas nações, nas guerras que trouxeram as armas, nas cidades e fora
delas, abarco tudo isso na escrita porque hoje trato aqui do sonho humano. Do
sopro inundado de certezas que é o estar, e do espirro doente das dúvidas que é
o ser. É a vida que sempre nos afora o corpo, pois não nos cabe, por isso nos salta
em canto, em tosse, em sexo, em família, em extinto, a vida nos vaza para fora,
porque não a suportamos nem por um segundo. Não posso mais explicar.
Em algum momento da história, nós olhamos para o céu, inventamos
o fogo e as coisas que matam, começamos a conversar e aos poucos fomos nos
parecendo. Mas em toda a história, sem poder precisar desde quando, nós
sonhamos. Muitas vezes durante a vida, inúmeras durante a noite e infinitas
durante o sonho.
A vida se nos impôs. Pelos sonhos foi que optamos, assim
como a terra optou por girar, mesmo quando lhe imposta o sol.
domingo, 23 de dezembro de 2012
Vida esquecida
Os olhos desgovernados pelas paredes do quarto, pelos móveis, pelos sapatos, quase crentes da felicidade que lhe mostravam sobre a vida, o homem os esfregava seguidamente para não lacrimejarem e embaçarem a nova história que contava sua memória. Ele recém acordado sentia impossivelmente as lembranças da felicidade, porque as possuía, que as avivava, que nunca, quando vivesse aqueles tempos, poderia estar feliz, demais para ser. No entanto, seus olhos batidos tudo o que viam era ela e não outra coisa.
Antes desse momento, ele insistia em dizer que não comprassem os amigos as comidas daquele país desconhecido, porque trariam problemas certamente. - Ao sabor!, contestavam os outros. - Ao banheiro, isso sim!, ele resistia. E resistia porque se lembrava de outras experiências, e se contava todo dia das suas lembranças, pensando viver das memórias que há tão pouco as tinha. Seus amigos seguiam saboreando, em espasmos de gula como se durassem anos, os mesmos anos em que o homem teve seus espasmos de vida, mas que agora encobertos, contidos. Sua memória aos poucos contou sua vida enquanto a matava.
Nas memórias do homem, o eu das lembranças devorava o eu dos sentidos. Suas histórias sobre o passado destruíam suas experiências, e as ressignificava outra vez, e outra. As suas recordações lhe pareciam mais com sua vida do que a própria. E ao passar do tempo as lembranças eram a única coisa que lhe satisfazia, e que fazia. A experiência do homem se tornou apenas lembrar, de viver, de comer de ouvir. Contar-se a história de seu passado o impedia de tê-lo vivido. Por isso mantinha agora os olhos incrédulos de poder enxergar novamente, por alguma razão. E tateou como nunca as paredes, e admirou os móveis, e calçou seus sapatos de acordar. De repente, foi esquecendo as recordações, apagando as memórias, já não lembrava de nada. Por isso foi estando feliz, - Como nunca estive!, imaginou assim, porque não sabia mais de seu passado.
Antes desse momento, ele insistia em dizer que não comprassem os amigos as comidas daquele país desconhecido, porque trariam problemas certamente. - Ao sabor!, contestavam os outros. - Ao banheiro, isso sim!, ele resistia. E resistia porque se lembrava de outras experiências, e se contava todo dia das suas lembranças, pensando viver das memórias que há tão pouco as tinha. Seus amigos seguiam saboreando, em espasmos de gula como se durassem anos, os mesmos anos em que o homem teve seus espasmos de vida, mas que agora encobertos, contidos. Sua memória aos poucos contou sua vida enquanto a matava.
Nas memórias do homem, o eu das lembranças devorava o eu dos sentidos. Suas histórias sobre o passado destruíam suas experiências, e as ressignificava outra vez, e outra. As suas recordações lhe pareciam mais com sua vida do que a própria. E ao passar do tempo as lembranças eram a única coisa que lhe satisfazia, e que fazia. A experiência do homem se tornou apenas lembrar, de viver, de comer de ouvir. Contar-se a história de seu passado o impedia de tê-lo vivido. Por isso mantinha agora os olhos incrédulos de poder enxergar novamente, por alguma razão. E tateou como nunca as paredes, e admirou os móveis, e calçou seus sapatos de acordar. De repente, foi esquecendo as recordações, apagando as memórias, já não lembrava de nada. Por isso foi estando feliz, - Como nunca estive!, imaginou assim, porque não sabia mais de seu passado.
Era o homem moderno. Estava cego.
sábado, 15 de dezembro de 2012
Conversa
Os homens falam das mulheres
mulheres, das dores
crianças, das outras crianças pequenas
você, de você
e seus problemas
artistas, das cores e suéteres
cambojanos, das setas nas cabeças
jornais, de seus autores
idosos, das doenças que têm,
antigos amores
os homens mais fortes, das suas fraquezas
crianças das ruas, de comida
das dores que têm, mulheres e autores
os jornais, dos problemas da vida
as cabeças das pessoas, do que farão
as respostas, do sim e do não
os artistas de dinheiro, do dinheiro,
das pessoas da avenida, os jornais
das respostas, as escolhas
das pequenas lembranças, a vida
de idosos e amores, falamos eu e você
que me ouve, ou que me lê,
quando a conversa é interrompida.
mulheres, das dores
crianças, das outras crianças pequenas
você, de você
e seus problemas
artistas, das cores e suéteres
cambojanos, das setas nas cabeças
jornais, de seus autores
idosos, das doenças que têm,
antigos amores
os homens mais fortes, das suas fraquezas
crianças das ruas, de comida
das dores que têm, mulheres e autores
os jornais, dos problemas da vida
as cabeças das pessoas, do que farão
as respostas, do sim e do não
os artistas de dinheiro, do dinheiro,
das pessoas da avenida, os jornais
das respostas, as escolhas
das pequenas lembranças, a vida
de idosos e amores, falamos eu e você
que me ouve, ou que me lê,
quando a conversa é interrompida.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Os cães
Um cão só late na noite escura e preta
porque ouviu outro cão, que late sempre
que outros cães latem, quando é noite
escura e preta, como o cão que só late
e anuncia o verso curto de cão
e reverencia o certo vulto do cão.
Nem mesmo sempre que estive a ouvir
valeu entender como quando vi,
por ser homem de vista e de ouvido,
e nunca de olfato ou conversa, e portanto
tranquilo para reconhecer minhas pernas,
minhas mãos e minhas mesmas costas,
nas marcas que fiz nas carnes do corpo,
as marcas que fiz das carnes no corpo.
Distante, as pessoas e os homens do almoço,
gritando seu dia, seu trabalho sob prédios,
nos falta entender dos remédios das dores
nos falta ostentar os excessos das cores.
Foi isso tudo que vi nas janelas e assentos que visitei
até hoje.
até hoje,
Os cães alardavam que eu voltava,
as moças gritavam que eu voltava,
as câmeras registravam que eu,
mãos me tocavam, choros choravam,
dentes faltavam pra rir que eu voltava,
os boatos confirmavam que eu,
os papéis escreviam, as cortinas abriam,
as cadeiras sentavam que eu voltava,
só meus olhos não criam que eu
voltava, tão outro, para casa.
porque ouviu outro cão, que late sempre
que outros cães latem, quando é noite
escura e preta, como o cão que só late
e anuncia o verso curto de cão
e reverencia o certo vulto do cão.
Nem mesmo sempre que estive a ouvir
valeu entender como quando vi,
por ser homem de vista e de ouvido,
e nunca de olfato ou conversa, e portanto
tranquilo para reconhecer minhas pernas,
minhas mãos e minhas mesmas costas,
nas marcas que fiz nas carnes do corpo,
as marcas que fiz das carnes no corpo.
Distante, as pessoas e os homens do almoço,
gritando seu dia, seu trabalho sob prédios,
nos falta entender dos remédios das dores
nos falta ostentar os excessos das cores.
Foi isso tudo que vi nas janelas e assentos que visitei
até hoje.
até hoje,
Os cães alardavam que eu voltava,
as moças gritavam que eu voltava,
as câmeras registravam que eu,
mãos me tocavam, choros choravam,
dentes faltavam pra rir que eu voltava,
os boatos confirmavam que eu,
os papéis escreviam, as cortinas abriam,
as cadeiras sentavam que eu voltava,
só meus olhos não criam que eu
voltava, tão outro, para casa.
domingo, 18 de novembro de 2012
Para o verso final não fui forte
É no papel que melhor enxergo o que há por dentro e o que há por perto do meu coração. Se há algum perigo, escrevo aflito, quando há coragem, um pouco de verdade, salvem a inspiração. Hoje, especialmente, escrevo a perguntar: - Meu corpo, tem em mente vontade de voltar a amar? A resposta é demorada, perco tempo e é quase nada. O silêncio prevalece e me revela o meu sofrer, como se eu já não soubesse que, apesar de tanta prece, meu destino é sofrer.
Ao papel é a quem venho, pois aprendi é a prosa a contradição desse mundo e poema o que brota para um coração sortudo. Ó! poema, tranquilo esboçar dos versos cadentes, puro amor e expressão, renitente é a prosa, pois não morre não, percorre o tempo até que escorre pelos fios dos cabelos da razão. Não quero a prosa pra viver, o poema é quem me hidrata, queria era poder esclarecer a falta de quem é que me mata da vontade de escrever. A cada ponto final que me nasce, sinto como se a inspiração se enforcasse e morresse da falta do ar que respiro, mas, perdido, o mesmo ar que suspiro foge como se sentisse a mesma falta de ar que eu sinto
As linhas me imploram que eu as complete e justifique com clareza as incertezas do existir mas de todo lado me chegam motivos pra que eu não as disserte ou metrifique coisa nenhuma porvir. Por merecer, por cuidar, por poder enxergar que nem rima nem verso me encantam mais que o pensar dos poetas dos
poemas, dos muros, dos palcos
engrenagens pequenas no escuro dos fatos, luzes discretas que ofuscam a quem se lhe abram os olhos
e os papéis, ou páginas concretas. Ao lirismo dediquei a vida
a entender que a prosa é a morte
de tudo que achei que sabia
Ao papel é a quem venho, pois aprendi é a prosa a contradição desse mundo e poema o que brota para um coração sortudo. Ó! poema, tranquilo esboçar dos versos cadentes, puro amor e expressão, renitente é a prosa, pois não morre não, percorre o tempo até que escorre pelos fios dos cabelos da razão. Não quero a prosa pra viver, o poema é quem me hidrata, queria era poder esclarecer a falta de quem é que me mata da vontade de escrever. A cada ponto final que me nasce, sinto como se a inspiração se enforcasse e morresse da falta do ar que respiro, mas, perdido, o mesmo ar que suspiro foge como se sentisse a mesma falta de ar que eu sinto
As linhas me imploram que eu as complete e justifique com clareza as incertezas do existir mas de todo lado me chegam motivos pra que eu não as disserte ou metrifique coisa nenhuma porvir. Por merecer, por cuidar, por poder enxergar que nem rima nem verso me encantam mais que o pensar dos poetas dos
poemas, dos muros, dos palcos
engrenagens pequenas no escuro dos fatos, luzes discretas que ofuscam a quem se lhe abram os olhos
e os papéis, ou páginas concretas. Ao lirismo dediquei a vida
a entender que a prosa é a morte
de tudo que achei que sabia
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Morrer de sonetos
Hoje sempre que me assassinam choro
como da primeira vez que morri
minha morte é doença da qual não melhoro
e mal já recordo os dias que sobrevivi
As encostas de meu corpo desmoronam
e a cada morte antecipo o arremate
à resfolga a vida me desapontam
o mártir e o próprio me xeque-mate
Mas os homens que me matam são quem amo
usam armas, usam lanças e as palavras violentas
quando se não ferem, mais a mim me aprisionam
E quando preso há alguém que sempre chamo
as lágrimas, aos prantos em calma desalenta
pois a morte e seu morrer já me contentam
como da primeira vez que morri
minha morte é doença da qual não melhoro
e mal já recordo os dias que sobrevivi
As encostas de meu corpo desmoronam
e a cada morte antecipo o arremate
à resfolga a vida me desapontam
o mártir e o próprio me xeque-mate
Mas os homens que me matam são quem amo
usam armas, usam lanças e as palavras violentas
quando se não ferem, mais a mim me aprisionam
E quando preso há alguém que sempre chamo
as lágrimas, aos prantos em calma desalenta
pois a morte e seu morrer já me contentam
sábado, 20 de outubro de 2012
Supus um dia em segredo que a vida devia estar enganada
Supus um dia em segredo que a vida
devia estar enganada
que a repetição dos tempos nos traria aos desencontros
dos momentos instantâneos revividos na memória
A truculência desta ideia me assaltando povoou meu seio
fosse eu em despreparo ou fosse eu em inocência
e o pensamento-violência me teria desmatado
as raízes das certezas construídas sob a crença
de um homem na beleza dessa vida
Que será que ali entretinha minhas ilusões de não viver
enquanto erguia os corações às voltas com grilhões
e a liberdade é dádiva e representação do esvaecer
Eu ali me fabricava outra vez no remorso de existir
não morri inteiramente então porque pude ser poeta
A truculência desta ideia me assaltando povoou meu seio
fosse eu em despreparo ou fosse eu em inocência
e o pensamento-violência me teria desmatado
as raízes das certezas construídas sob a crença
de um homem na beleza dessa vida
Que será que ali entretinha minhas ilusões de não viver
enquanto erguia os corações às voltas com grilhões
e a liberdade é dádiva e representação do esvaecer
Eu ali me fabricava outra vez no remorso de existir
não morri inteiramente então porque pude ser poeta
Escravos da própria sorte
... de um amor que é imortal
... e só o homem aprendeu matar
... de um amor que é imortal
... e só o homem aprendeu matar
domingo, 30 de setembro de 2012
Sangue de pouca tinta
Nas fundezas de um país
ou de um lugar que é bonito
tem lá muitos homens-pouco
que nos papel não se pinta
é sangue de pouca tinta
que não vale nem um escrito
nem seus feitos nem suas coisas
que é mato, grama, moita, é terra!
e ninguém preocupa: que não pode
Tem homem que vai embora,
novo, e nunca mais que volta
teima de esquecer da família
é sangue de pouca tinta
que não escreve memória, cê vê...
pra se alembrar só no retrato
que na cidade tem muito,
é mundão, e os escrito são grande
Eu num vejo o sertão é nunquinha
lá não vou mais que não quero
que não posso, que me esperam
é distante a viagem demais,
se um dia eu tiver filho que der pros escrito
vou dizer, mesmo que muito sinta:
- és sangue de pouca tinta
ou de um lugar que é bonito
tem lá muitos homens-pouco
que nos papel não se pinta
é sangue de pouca tinta
que não vale nem um escrito
nem seus feitos nem suas coisas
que é mato, grama, moita, é terra!
e ninguém preocupa: que não pode
Tem homem que vai embora,
novo, e nunca mais que volta
teima de esquecer da família
é sangue de pouca tinta
que não escreve memória, cê vê...
pra se alembrar só no retrato
que na cidade tem muito,
é mundão, e os escrito são grande
Eu num vejo o sertão é nunquinha
lá não vou mais que não quero
que não posso, que me esperam
é distante a viagem demais,
se um dia eu tiver filho que der pros escrito
vou dizer, mesmo que muito sinta:
- és sangue de pouca tinta
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Prosa média
Assim, de repente, as pessoas perderam suas vontades.
Não havia mais o som, nem a figura, a cor não existia. Jogaram as tintas todas nos rios, que se tornaram mar, e as fotos dos momentos vividos desbotaram. O movimento perdeu a razão, o gosto deixou de existir, deixaram de existir também os gestos, não tardou e a linguagem se foi. A luz foi indo-se embora junto dos escuros, levaram o tempo, o perdão e o silêncio. Das histórias se esqueceram, dos nomes se desprenderam, dos amores se fugiram. A liberdade já não era tão vistosa, era cara, era tanta, e ninguém quis, e morreu. E os sonhos dos meninos das pessoas acordaram, as rugas da velhice das pessoas se apagaram, as culpas dos pecados das pessoas, absolvição. Ninguém mais juntou versos. As cordas estavam esticadas e um homem as desafinou, alegou moralismo. Só existia no mundo as certezas, que eram muitas e enormes e as crianças as tomavam como sombra. O depois, o antes e o agora, na fusão da vida, se uniram no que disseram chamar saudade. E era tanta falta, tanto arrependimento, tanto remorso, tanta saudade de tudo que não há mais e de tudo que ainda poderia existir mais para frente, que os homens, naquele surto de quase morrer de saudade, se sentiram obrigados a criar.
Não havia mais o som, nem a figura, a cor não existia. Jogaram as tintas todas nos rios, que se tornaram mar, e as fotos dos momentos vividos desbotaram. O movimento perdeu a razão, o gosto deixou de existir, deixaram de existir também os gestos, não tardou e a linguagem se foi. A luz foi indo-se embora junto dos escuros, levaram o tempo, o perdão e o silêncio. Das histórias se esqueceram, dos nomes se desprenderam, dos amores se fugiram. A liberdade já não era tão vistosa, era cara, era tanta, e ninguém quis, e morreu. E os sonhos dos meninos das pessoas acordaram, as rugas da velhice das pessoas se apagaram, as culpas dos pecados das pessoas, absolvição. Ninguém mais juntou versos. As cordas estavam esticadas e um homem as desafinou, alegou moralismo. Só existia no mundo as certezas, que eram muitas e enormes e as crianças as tomavam como sombra. O depois, o antes e o agora, na fusão da vida, se uniram no que disseram chamar saudade. E era tanta falta, tanto arrependimento, tanto remorso, tanta saudade de tudo que não há mais e de tudo que ainda poderia existir mais para frente, que os homens, naquele surto de quase morrer de saudade, se sentiram obrigados a criar.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Mais livre me sinto que morte
Há sempre quem compre alguém
há sempre quem lembre do bem
pra sempre se rompe o além
vá lembre que ainda me tem
vá tente me ser alguém
contente me volte zen
Criança perdida no mato
criança advinda do parto
vi dança esquisita no mato
na frança perdi meu sapato
herança crescida no ato
finanças de todos os lados
Doença de cão enjoado
Convença do não Seu Geraldo
Conversa de irmão premiado
Vou nessa tão são internado
Promessa de não fazer fado
Prometa a seu tão bem amado
Pintura completa instantânea
Cultura em poeta se assanha
Mistura secreta champanha
Usura afeta a campanha
tontura cagueta a montanha
textura me aperta e arranha
Da morte me sinto mais livre
Mais livre me sinto da morte
Me sinto mais morte que livre
Mais livre me sinto que morte
há sempre quem lembre do bem
pra sempre se rompe o além
vá lembre que ainda me tem
vá tente me ser alguém
contente me volte zen
Criança perdida no mato
criança advinda do parto
vi dança esquisita no mato
na frança perdi meu sapato
herança crescida no ato
finanças de todos os lados
Doença de cão enjoado
Convença do não Seu Geraldo
Conversa de irmão premiado
Vou nessa tão são internado
Promessa de não fazer fado
Prometa a seu tão bem amado
Pintura completa instantânea
Cultura em poeta se assanha
Mistura secreta champanha
Usura afeta a campanha
tontura cagueta a montanha
textura me aperta e arranha
Da morte me sinto mais livre
Mais livre me sinto da morte
Me sinto mais morte que livre
Mais livre me sinto que morte
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Chama, Maria, chama, chama rápido, Maria, chama que ele atende, chama logo, chama mais, chama, Maria, chama com vontade, grita, grita, Maria, anda, grita logo, grita, Maria, grita que ele atende, grita, isso, grita, Maria, grita pra fora que ele escuta, grita bem alto, grita sem medo, Maria, grita, Maria, grita, grita muito, berra então de uma vez, berra, Maria, berra, Maria, berra!
Então ele foi embora de volta pro Ceará.
Então ele foi embora de volta pro Ceará.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Discórdia
Eram mãos atentas apostas para reação a qualquer maior movimento. O braço entrelaça o pescoço do refém apertado, é nó na garganta e impaciência. São também apressados olhares aos lados, a cima, ao homem ameaçado, ao relógio, mas não se pode nem reparar no homem o que faz e nem nas horas. Passam cães saídos de outros becos que ali vão para saber dos ruídos que ouviam se eram lixo fresco. E na verdade eram dois homens de pés juntos fazendo força, um deles com uma faca contra o peito do outro, estagnados pelo medo de matar e de morrer. Não mais se olhavam porque um deu as costas; dois homens, se imaginando nervosos pelas mãos que sentiam tocá-los, pela força que faziam e que recebiam. Um segurava o outro por trás, impondo-lhe uma faca a vista, o outro resistia à verdade. É beco escuro e som estrondo de latão derrubado, quem seria ali se não animais fazendo barulho? Os homens que tinham nas mãos do outro a própria vida: - Te mato ou cala a boca.
O silêncio da cidade fugia inteiro àquela viela de sacos de lixo e o tempo passava. Tanta força depois, o homem quase morto esfalecia, ameaçava cair de tonto, num desmaio de fraqueza. Mas o tranco que levava de leve da faca contra o peito o deixava sóbrio afinal. Aquilo era cena de crime, antes do crime. Parecia que o dono da faca era o único com poder de escolha, poderia matar ou não. Era a arma que lhe dava a dúvida e a resposta. No entanto, da vitima veio o apelo, me mate. Num minuto o homem esquecia da faca, da vingança, do potencial assassinato, notou a carne que também formava o homem quase bicho, aquele acuo de gente indefeso.
A semelhança entre a fera do homem armado e o arredio de medo daquele incapaz promoveu estranhamento nos dois. De trás, o primeiro, não mais em posição de ataque, recuava incessante numa fuga momentânea de desespero, para o vácuo impróprio, de não haver nem corpo nem gente. E o antes cansado segundo homem, agora, rompia o frescurão da noite numa chama de energias, a vida e o poder lhe concedendo a mágica-triunfo do adeus, de poder partir e remoçar-se mesmo assim.
Tudo porque as mãos tocaram-se, antebraços esbarraram-se, ombro em peito, costas em pernas, inteiro contato e o suor perpassado de algumas roupas à face com barba.
O silêncio da cidade fugia inteiro àquela viela de sacos de lixo e o tempo passava. Tanta força depois, o homem quase morto esfalecia, ameaçava cair de tonto, num desmaio de fraqueza. Mas o tranco que levava de leve da faca contra o peito o deixava sóbrio afinal. Aquilo era cena de crime, antes do crime. Parecia que o dono da faca era o único com poder de escolha, poderia matar ou não. Era a arma que lhe dava a dúvida e a resposta. No entanto, da vitima veio o apelo, me mate. Num minuto o homem esquecia da faca, da vingança, do potencial assassinato, notou a carne que também formava o homem quase bicho, aquele acuo de gente indefeso.
A semelhança entre a fera do homem armado e o arredio de medo daquele incapaz promoveu estranhamento nos dois. De trás, o primeiro, não mais em posição de ataque, recuava incessante numa fuga momentânea de desespero, para o vácuo impróprio, de não haver nem corpo nem gente. E o antes cansado segundo homem, agora, rompia o frescurão da noite numa chama de energias, a vida e o poder lhe concedendo a mágica-triunfo do adeus, de poder partir e remoçar-se mesmo assim.
Tudo porque as mãos tocaram-se, antebraços esbarraram-se, ombro em peito, costas em pernas, inteiro contato e o suor perpassado de algumas roupas à face com barba.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Eram sempre os mesmos homens
Os homens sentavam-se em frente ao monumento central da praça e ocupavam as cadeiras e as mesas da calçada. Aquele café antigo, da Rua dos Comuns, não era popular senão pelos ferroviários exaustos que se amontoavam ali, mesmo só restando-lhes as forças de pensamento. Era que eles sentiam-se pouco, e logo se faziam luxo do café que tomavam, minguado, reclamado do tamanho, mas era café, num café, na praça. E eram duas ou três horas que ficavam, que durava o lanche enrolado em panos, que bateria o relógio se o tivessem no bolso de algum paletó. Arremedo de gente, dizia o garçom que ouvia lá de dentro de algum freguês: - arremedo!, e se sentia feliz, assim como os homens da ferrovia que precisavam estar na presença de outros para existir, para existirem, e sentiam-se felizes, todos ao mesmo instante.
Um tal homem usando monóculo de fim de século, com lenço, ombreira, descendo a rua em direção a casa, num fim de tarde; então os homens entreolhavam-se a pensar que ele perdera o chapéu - paravam, calados, atentos, num suspense que precede o êxtase, gritavam: - Feito o amor, esquecida a cartola, corre, corre, Senhor, já é hora. E estapeavam-se a rir bem alto, movendo-se o corpo a todos os lados, esticando a cara para frente, procurando noutra gargalhada a mesma certeza do riso, da felicidade, do instante e daquele inteiro momento pleno. Era só o que tinham. - que escritorzinho eu sou - Era tudo o que tinham! Era muito o que tinham! Era o mundo o que tinham! Era deles o mundo, não é mais, o deles morreu.
Um tal homem usando monóculo de fim de século, com lenço, ombreira, descendo a rua em direção a casa, num fim de tarde; então os homens entreolhavam-se a pensar que ele perdera o chapéu - paravam, calados, atentos, num suspense que precede o êxtase, gritavam: - Feito o amor, esquecida a cartola, corre, corre, Senhor, já é hora. E estapeavam-se a rir bem alto, movendo-se o corpo a todos os lados, esticando a cara para frente, procurando noutra gargalhada a mesma certeza do riso, da felicidade, do instante e daquele inteiro momento pleno. Era só o que tinham. - que escritorzinho eu sou - Era tudo o que tinham! Era muito o que tinham! Era o mundo o que tinham! Era deles o mundo, não é mais, o deles morreu.
sábado, 11 de agosto de 2012
segunda-feira, 9 de julho de 2012
O meu sonho é ser bandido
Mentira.
Meu sonho é ser indefinido
e poder carregar um milhão de bandeiras.
Mentira, meu sonho é ser eu mesmo
e vencer.
Mentira, meu sonho é perder para sempre.
Meu sonho é ser indefinido
e poder carregar um milhão de bandeiras.
Mentira, meu sonho é ser eu mesmo
e vencer.
Mentira, meu sonho é perder para sempre.
terça-feira, 29 de maio de 2012
Espelho
Por um instante, o desfoque impossibilita o reconhecimento do que se percebe. O altruista vê-se dentro de um espelho: tudo, exceto a cópia. Vê-se egoísta, com raiva, impreciso. O espelho o reflete - nem tão simples, que o reflexo é impossível como réplica. Não se pode ser. Há um espelho, o homem e o reflexo, e nunca se poderá contabilizar menos que três, que seria errar, ignorar-se ou omitir a verdade daquele que habita o espelho.
O espelho repete, sim, contudo nem só contrário, como ainda a inovação, o inverossímil.
Aqui, a direita, lá, a esquerda. Isso bastaria ao perceber humano que se abstivesse de notar o inconcluso estado das certezas, razão e provas. À mínima curiosidade deu-se a luz de supor que aqui se busca e lá se responde, como um experimento: aqui, a tese, o cerne experimental, a dúvida, equanto lá, a comprovação, o confronto, o fruto, que por alguma confortância não só observamos como os tomamos verdade original.
Quando há paz aqui, lá há guera, que imediatamente replicamos deste lado crédulos de consquista que será apenas desgraça. Percebem?
Ainda o caos, como entidade regente do mundo, impalpável desordem de acontecimentos, obsevando-se em um espelho, cairia abismado, perplexo ou incrédulo da própria existência ao perceber-se sendo capturado em cada desordenamento e como dança coreografada reproduzido identicamente a sua frente.
Ainda o caos, como entidade regente do mundo, impalpável desordem de acontecimentos, obsevando-se em um espelho, cairia abismado, perplexo ou incrédulo da própria existência ao perceber-se sendo capturado em cada desordenamento e como dança coreografada reproduzido identicamente a sua frente.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Fado D'onde Venho
Mirava distante teu corpo dançante, enxerguei sofrimento
Tão grave que querias pôr as duas mãos frias em teu próprio peito
Ninguém te detinha, quando em tua carinha, chorava sem jeito
Foi que vi que tu morrias
mas quem sabe não querias
era ouvir-me um momento
Descanse algum tanto de teu outro pranto, te encostes em mim
Findando o desejo daquele outro beijo, dá-me então tua mão
Que quero resposta, nem tão logo agora, cure teu coração
Só então que decidas,
tocar-te a vida,
pra cá, pouco assim
Há já mais que muitos dias,
que vivo a euforia de te reencontrar
Disseram-me que te viram,
em plenos carinhos à beira do mar
Mas mal sabem que d'onde venho
moças muito apaixonadas
estão no porto esperar
Mas mal sabem, d'onde venho
se me cativam em algum momento
já me torno prisioneiro
Tão grave que querias pôr as duas mãos frias em teu próprio peito
Ninguém te detinha, quando em tua carinha, chorava sem jeito
Foi que vi que tu morrias
mas quem sabe não querias
era ouvir-me um momento
Descanse algum tanto de teu outro pranto, te encostes em mim
Findando o desejo daquele outro beijo, dá-me então tua mão
Que quero resposta, nem tão logo agora, cure teu coração
Só então que decidas,
tocar-te a vida,
pra cá, pouco assim
Há já mais que muitos dias,
que vivo a euforia de te reencontrar
Disseram-me que te viram,
em plenos carinhos à beira do mar
Mas mal sabem que d'onde venho
moças muito apaixonadas
estão no porto esperar
Mas mal sabem, d'onde venho
se me cativam em algum momento
já me torno prisioneiro
quarta-feira, 21 de março de 2012
Sobre minha escrita poética
Socorro!
Que todos assim se iniciem, agora. é uma lei para que nos salvemos. Salvar a própria escrita do fantasma de quem a fez, e a todos salvar, que ainda não pediram ajuda. Socorro! outra vez. logo não poderei faze-lo, então que eu te ensine o caminho. Que pouco entendemos dos que querem dizer e que tanto supomos dos que calam. melhor seria calar, então. Pois não, não te desperto o que importa da minha poesia; o que te falta para ser melhor, tão pouco. Socorro! Para isso: um cão que chora, uma roupa perdida, um adeus sem resposta, um amanhecer. Isso importa mais, então, Socorro!Confie, tendo em si um perdão reservado a quem, desesperado, te confie também. Te salvarás, porque Socorro!, te salvarás porque confio. Poetas, garçons, engenheiros e crianças, se salvem ainda hoje, ou amanhã. mas se perdoem apesar de tudo. Quando não mais puderem escrever, por favor, que salvem. dificulta quando dependo de dizer Socorro!, então que digam ainda hoje o mesmo. Estendidas as mãos e maleáveis no ar, desenhando um contorno, pedindo perdão e é claro que o Socorro!
Pedaços de sim que mal querem dizer o que são. o sim se esconde. Enquanto o não, não. Socorro! a quem diga o mesmo de mim, porém, melhor ainda: Pardon, pela poesia mal escrita. Caberia a alguém o direito de nascer, corromper do velado sonho de salvar alguém?
Socorro! por enquanto eu não peço, eu socorro.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Descuido
Rubros calcanhares,
juro que ainda lhes tenho em meus olhos
descalços e sozinhos, até os vejo na praia
carimbando a areia carente das nossas pegadas
mas aí já foi sonho, aquele do descanso,
e é ótimo que os possa perceber
Juro que ainda te tenho olhos
É de manhã e eu presumo que sim
que os possa rever e confirmar o que suportavam
silenciosos, só sabiam estalar de leve pelo chão
vento de janela em sussurro balançando lençol
tudo muita confusão, o sono, a claridade
algum som, calor, quando quase me escaparam,
Que os possa rever e junto o que suportavam
Foi um beijo a despedida e
a surpresa de me encantar com seus passos
ruídos rápidos de roupas se vestindo
e já nunca mais calores, não, nem carinhos
entregues esparsos como favores
à surpresa de me serem um encanto
A ordem está retida lá fora, sem acontecer
há distância enquanto quero proximidade, é meu caos
eu quero algo perto, mais perto de alguém que havia aqui
escurecem meus olhos fechados,
meu lar completamente escuro, sufocado
Que falta sinto eu que não lembro?
Nomes perdidos na imensidão da noite
que a ambos enganou com palavras mal ditas
arrancos do amor, carícias que foram tropeços
calor, novamente um calor de paixão
distorce as imagens que tentam e não se formam
é algo como estar numa praia sozinho
se derrubar na areia, e o sol um clarão aceso ofusca
o vento soprando um deserto, logo alí
nossas pegadas desenham meu lar
porém, apenas me restaram
na lembrança os rubros calcanhares.
juro que ainda lhes tenho em meus olhos
descalços e sozinhos, até os vejo na praia
carimbando a areia carente das nossas pegadas
mas aí já foi sonho, aquele do descanso,
e é ótimo que os possa perceber
Juro que ainda te tenho olhos
É de manhã e eu presumo que sim
que os possa rever e confirmar o que suportavam
silenciosos, só sabiam estalar de leve pelo chão
vento de janela em sussurro balançando lençol
tudo muita confusão, o sono, a claridade
algum som, calor, quando quase me escaparam,
Que os possa rever e junto o que suportavam
Foi um beijo a despedida e
a surpresa de me encantar com seus passos
ruídos rápidos de roupas se vestindo
e já nunca mais calores, não, nem carinhos
entregues esparsos como favores
à surpresa de me serem um encanto
A ordem está retida lá fora, sem acontecer
há distância enquanto quero proximidade, é meu caos
eu quero algo perto, mais perto de alguém que havia aqui
escurecem meus olhos fechados,
meu lar completamente escuro, sufocado
Que falta sinto eu que não lembro?
Nomes perdidos na imensidão da noite
que a ambos enganou com palavras mal ditas
arrancos do amor, carícias que foram tropeços
calor, novamente um calor de paixão
distorce as imagens que tentam e não se formam
é algo como estar numa praia sozinho
se derrubar na areia, e o sol um clarão aceso ofusca
o vento soprando um deserto, logo alí
nossas pegadas desenham meu lar
porém, apenas me restaram
na lembrança os rubros calcanhares.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Sobre desculpas e perdão
Flor do monte cai suas pétalas
que de forte o vento também espalha os espinhos
e antes de saber das mortes
como em fantasia jaz
seu corpo retorcido é quase choro,
é perfume de desculpas
Homem tem razão se chora
quando o enganam e se por um instante
fica enraivecido quando o ferem
mas sábio amadurece o ódio
e como fruto nasce o seu perdão:
mão erguida que recolhe ao bolso
Árvore que devora a terra
alimenta o chão com seu fruto.
Onda esmigalha as pedras
mas se faz espuma que banha a areia.
Carvão nos suja os dedos
mas ainda aquece o corpo.
Sol que queima não tarda se põe em beleza.
Outono finda o verão mas encerra o calor.
Estrelas nos são imortais e ainda ofertam a luz.
Anestesia,
Educação,
Amor dos pais,
Cultura,
Justiça,
Beleza,
A culpa
é falar do medo
de morrer e deixar seus erros
pois a vida em cada passo seu
e em tudo que eu ainda não disse
é sobre desculpas e perdão
que de forte o vento também espalha os espinhos
e antes de saber das mortes
como em fantasia jaz
seu corpo retorcido é quase choro,
é perfume de desculpas
Homem tem razão se chora
quando o enganam e se por um instante
fica enraivecido quando o ferem
mas sábio amadurece o ódio
e como fruto nasce o seu perdão:
mão erguida que recolhe ao bolso
Árvore que devora a terra
alimenta o chão com seu fruto.
Onda esmigalha as pedras
mas se faz espuma que banha a areia.
Carvão nos suja os dedos
mas ainda aquece o corpo.
Sol que queima não tarda se põe em beleza.
Outono finda o verão mas encerra o calor.
Estrelas nos são imortais e ainda ofertam a luz.
Anestesia,
Educação,
Amor dos pais,
Cultura,
Justiça,
Beleza,
A culpa
é falar do medo
de morrer e deixar seus erros
pois a vida em cada passo seu
e em tudo que eu ainda não disse
é sobre desculpas e perdão
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Todo erro do regresso
Quando, em sombras farrapas, medrosos deixamos a guerra
no âmago de si não brio, não estima, mas restar-se inútil. No imo apenas o revés
partimos, cada um temeroso, erigindo na farda o estandarte: incapaz
contrários da crescida flâmula que impôs a pátria na largada
e que agora tenta acalentar ignóbil o morrer frouxo de tantos.
Que lástima o silêncio, se o trote e a marcha enraivecia-nos, guerreiros
não há o remoçante hino de esbravejos incontidos, que ditavam a campanha,
mesmo assim, só em desaviso, diria alguém os desprimores da lamúria geral
se agora nasce de tal pranto um santo chorar, em canto que indulta as almas estorvas,
e é, ainda, antiga memória da vez que na partida choraram as mães.
Quem vista tiver, entocado ou por ventura, do espólio inimigo decifrará a fuga
pois homens lutavam, se por apego a causa, esperançosos a matar por paz
no entanto, um sentimento devorou o outro e assaltou-lhes a ideia da derrota
agora, não há bem no regresso, quando homem e cidade ao tempo passar se estranham
vil descompasso de homens que assimilam: saudade do lar que deixei, não tal.
Queria ter partido em prosa, feito bardos ter palavras e a culpa só do chorar
mais que dor, há buraco em tudo que pisei, cri sempre tolo na volta sem remorso
então, em qual esmero traria eu a descoberta sã, de salvar nossos filhos do futuro?
nem segredo, ou ponto-fraco alheio, nem armas, ou profecias, ouro e prata não
descobri que a guerra é nunca orfã!
no âmago de si não brio, não estima, mas restar-se inútil. No imo apenas o revés
partimos, cada um temeroso, erigindo na farda o estandarte: incapaz
contrários da crescida flâmula que impôs a pátria na largada
e que agora tenta acalentar ignóbil o morrer frouxo de tantos.
Que lástima o silêncio, se o trote e a marcha enraivecia-nos, guerreiros
não há o remoçante hino de esbravejos incontidos, que ditavam a campanha,
mesmo assim, só em desaviso, diria alguém os desprimores da lamúria geral
se agora nasce de tal pranto um santo chorar, em canto que indulta as almas estorvas,
e é, ainda, antiga memória da vez que na partida choraram as mães.
Quem vista tiver, entocado ou por ventura, do espólio inimigo decifrará a fuga
pois homens lutavam, se por apego a causa, esperançosos a matar por paz
no entanto, um sentimento devorou o outro e assaltou-lhes a ideia da derrota
agora, não há bem no regresso, quando homem e cidade ao tempo passar se estranham
vil descompasso de homens que assimilam: saudade do lar que deixei, não tal.
Queria ter partido em prosa, feito bardos ter palavras e a culpa só do chorar
mais que dor, há buraco em tudo que pisei, cri sempre tolo na volta sem remorso
então, em qual esmero traria eu a descoberta sã, de salvar nossos filhos do futuro?
nem segredo, ou ponto-fraco alheio, nem armas, ou profecias, ouro e prata não
descobri que a guerra é nunca orfã!
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Tempo é senão medida arbitrária
Soluciono minha angústia, resolvido a escrever poemas. Na idade de rápido queimar a chama, uma euforia crescente se aproxima e me envolve, na prontidão de meu estro, busco em exaustiva ânsia versos a por nos cadernos como se busca o alimento da vida a por nas mesas. Desembainho a caneta apto a tratar da natureza, que em orvalhos sonolentos da manhã nos oferta sua primeira lágrima, apto a cuidar com as mais doces palavras as dores dos casais gentis que se amam, ou apto em meu ímpeto discursar interminavelmente o meu sentir quanto a beleza infinda da donzela amada, e para todos me sinto afeito. Mas sei bem, como o sabe quem ama, que a efusão traz consigo a tormenta do depois, que é a culpa do não se conter agora.
Acalmo primeiro meu corpo, para então sossegar a alma. Apenas quando mansos, os sentimentos pontiagulham duas ou três palavras no papel. Não que me faltem os andamentos, as formas ou as regras para preencher as linhas, os sentidos é que me são poucos, na mente quase nada há de mutável, pois a semântica me coage ao silêncio, à confissão do não pendor para escrita poética. O palpável deve ser socorrido, o salário, a guerra, o sexo, e deve ser mais bem elucidado, pois o é possível; já o desejo de tocar os corações deve continuar pairando invisível e ninguém deve tornar trazê-lo ao chão. Vivo agora a idade da conformação. Isso, ou o impulso da inspiração vai esfriando, mas a vontade do poema não morre.
Descubro finalmente o porquê das paixões e dos trabalhos. Vencida a vida e no seu próprio fim, resulta inútil o preocupar-se com aparências por não o mais poder, também o dar vazão completa ao que se sente. Não sei a razão de só agora ter percebido o quão pouco foi-me sempre o tempo. Da fugaz beleza moça às primeiras zangas do ofício, preservei um só costume, o qual foi meu refúgio em tempos escuros e a própria liberdade enquanto descansava: a poesia. Atualmente, para as fugas repentinas da memória receito-me a leitura completa dos meus cadernos, transpassando a vida de um personagem que tanto se assemelha a mim quanto à identidade que busquei .
Acalmo primeiro meu corpo, para então sossegar a alma. Apenas quando mansos, os sentimentos pontiagulham duas ou três palavras no papel. Não que me faltem os andamentos, as formas ou as regras para preencher as linhas, os sentidos é que me são poucos, na mente quase nada há de mutável, pois a semântica me coage ao silêncio, à confissão do não pendor para escrita poética. O palpável deve ser socorrido, o salário, a guerra, o sexo, e deve ser mais bem elucidado, pois o é possível; já o desejo de tocar os corações deve continuar pairando invisível e ninguém deve tornar trazê-lo ao chão. Vivo agora a idade da conformação. Isso, ou o impulso da inspiração vai esfriando, mas a vontade do poema não morre.
Descubro finalmente o porquê das paixões e dos trabalhos. Vencida a vida e no seu próprio fim, resulta inútil o preocupar-se com aparências por não o mais poder, também o dar vazão completa ao que se sente. Não sei a razão de só agora ter percebido o quão pouco foi-me sempre o tempo. Da fugaz beleza moça às primeiras zangas do ofício, preservei um só costume, o qual foi meu refúgio em tempos escuros e a própria liberdade enquanto descansava: a poesia. Atualmente, para as fugas repentinas da memória receito-me a leitura completa dos meus cadernos, transpassando a vida de um personagem que tanto se assemelha a mim quanto à identidade que busquei .
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Há algum tempo sem perceber
o mundo deles tomou rumo diferente
como fosse calculado, alguém que tudo vê
agendou tristeza no cotidiano dessa gente
e porque?
Cômodos e eletrônicos têm uso exclusivo
alguém estuda no quarto, alguém na sala vê tv
procuram respostas nos livros
quando do outro bastava querer saber.
Em cada lugar, cada um; e cada um, uma ilha
Logo, nunca mais voltam a ser
o que se chamava família.
o mundo deles tomou rumo diferente
como fosse calculado, alguém que tudo vê
agendou tristeza no cotidiano dessa gente
e porque?
Cômodos e eletrônicos têm uso exclusivo
alguém estuda no quarto, alguém na sala vê tv
procuram respostas nos livros
quando do outro bastava querer saber.
Em cada lugar, cada um; e cada um, uma ilha
Logo, nunca mais voltam a ser
o que se chamava família.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
O maior mistério do poema
De palmas vazias
alguns homens aguardam a comida,
o dinheiro, o aceno em resposta
mas há sempre dentre as palmas
mãos apressadas que não esperam
conduzem as letras e as dão aos homens
de vistas vazias
que primeiro se ofuscam e se doem
querem se fechar para não ver
mas há sempre dentre as vistas
olhos curiosos a permitir
que as letras conquistem os homens
de corações vazios
homens
de corações sozinhos
homens, só homens
que sempre esperam
com as palmas, com as vistas
e de coração.
alguns homens aguardam a comida,
o dinheiro, o aceno em resposta
mas há sempre dentre as palmas
mãos apressadas que não esperam
conduzem as letras e as dão aos homens
de vistas vazias
que primeiro se ofuscam e se doem
querem se fechar para não ver
mas há sempre dentre as vistas
olhos curiosos a permitir
que as letras conquistem os homens
de corações vazios
homens
de corações sozinhos
homens, só homens
que sempre esperam
com as palmas, com as vistas
e de coração.
sábado, 10 de setembro de 2011
Transbordar
Como as janelas estão abertas,
resta ao homem desfazer-se da cortina
e seu aceno tranquilo anuncia que é feliz.
Então, pela manhã, a rua logo o entende,
retruca com vento nas folhas,
que balançam novas sombras sobre a janela.
Há certa luz percorrendo as pessoas
embrenhando-se nelas também.
Já eu, lá, distante. Receoso em interromper a total harmonia, sou breve.
O homem desce da janela e ganha outros rostos,
que concordam com seu caminhar ereto, calmo, correto.
Há certa leveza em seu tratar com a cidade,
e as árvores gigantes da calçada entendem isso.
Segue a jornada sem saber o fim,
desconhece o destino e a razão de havê-lo;
e basta, toda paz que sente é real.
A ideia de fazer parte do mundo me assalta, mas só caibo mesmo pelo contraste.
Em algum momento, tropeça,
o homem perde o passo, e a cidade não aceita.
Tenta ridiculamente voltar para todos os seus reais amores,
e vê que mãos desconhecidas os afagam.
Mira a sua voz na direção da cidade e chama pelos rostos familiares,
porém, o som das folhas nas árvores gigantes é mais alto, o tortura.
Ele fica impaciente, rói os próprios ouvidos para não escutar.
Agora, está em frente aos fechados portões, também gigantes, da cidade.
Do lado de fora, pela primeira vez,
não faz parte da felicidade.
Quando volta o olhar para a direção contrária a da cidade,
enxerga um mundo desconhecido,
de outros, como eu, talvez-homens.
E por último, ele chora.
resta ao homem desfazer-se da cortina
e seu aceno tranquilo anuncia que é feliz.
Então, pela manhã, a rua logo o entende,
retruca com vento nas folhas,
que balançam novas sombras sobre a janela.
Há certa luz percorrendo as pessoas
embrenhando-se nelas também.
Já eu, lá, distante. Receoso em interromper a total harmonia, sou breve.
O homem desce da janela e ganha outros rostos,
que concordam com seu caminhar ereto, calmo, correto.
Há certa leveza em seu tratar com a cidade,
e as árvores gigantes da calçada entendem isso.
Segue a jornada sem saber o fim,
desconhece o destino e a razão de havê-lo;
e basta, toda paz que sente é real.
A ideia de fazer parte do mundo me assalta, mas só caibo mesmo pelo contraste.
Em algum momento, tropeça,
o homem perde o passo, e a cidade não aceita.
Tenta ridiculamente voltar para todos os seus reais amores,
e vê que mãos desconhecidas os afagam.
Mira a sua voz na direção da cidade e chama pelos rostos familiares,
porém, o som das folhas nas árvores gigantes é mais alto, o tortura.
Ele fica impaciente, rói os próprios ouvidos para não escutar.
Agora, está em frente aos fechados portões, também gigantes, da cidade.
Do lado de fora, pela primeira vez,
não faz parte da felicidade.
Quando volta o olhar para a direção contrária a da cidade,
enxerga um mundo desconhecido,
de outros, como eu, talvez-homens.
E por último, ele chora.
domingo, 28 de agosto de 2011
A porta, o arquipélago
Trava. Destrava a tranca, tranca logo depois. Trava a tranca,
o trinco fica aberto mesmo. O trinco não fecha, pois senão não abre.
Fecha a trinca que alguém entra quando fica aberta, o trinco não!
O trinco ninguém abre, por isso ninguém fecha, mas fecha a trinca que alguém entra.
Fechado feito fecho. Eu não fecho porque estou dentro mas você fecha quando for,
trinca e fecho estão travados pois ainda estamos trancafiados aqui.
O trinco destravava quando se fechava. O trinco agora travou,
e ninguém tranca quando sai, apenas fecha. Mas quando tranca,
fecha o trinco e aí ninguém,
ninguém abre a porta.
Hoje sei que não sou ilha. Toda atitude altruísta é válida, é única, só existe
Eu seria mais de mim sem outros tantos? Não
posso responder a mil perguntas, mas todas são respostas a alguém.
O outro, inimigo ou pedra ou gente, vive por mim também
então nunca mais o nego. Sou por você, meu outro ser.
Faço sempre por você, mato por você, e machuco os outros
por eles e por você. Não sou: só reflito pele, músculos, pelos.
Meus pés, e os seus, os deles, estão molhados, pois nos movemos juntos.
Tenho terra para plantar, muita comida é para você: Outro.
o trinco fica aberto mesmo. O trinco não fecha, pois senão não abre.
Fecha a trinca que alguém entra quando fica aberta, o trinco não!
O trinco ninguém abre, por isso ninguém fecha, mas fecha a trinca que alguém entra.
Fechado feito fecho. Eu não fecho porque estou dentro mas você fecha quando for,
trinca e fecho estão travados pois ainda estamos trancafiados aqui.
O trinco destravava quando se fechava. O trinco agora travou,
e ninguém tranca quando sai, apenas fecha. Mas quando tranca,
fecha o trinco e aí ninguém,
ninguém abre a porta.
Hoje sei que não sou ilha. Toda atitude altruísta é válida, é única, só existe
Eu seria mais de mim sem outros tantos? Não
posso responder a mil perguntas, mas todas são respostas a alguém.
O outro, inimigo ou pedra ou gente, vive por mim também
então nunca mais o nego. Sou por você, meu outro ser.
Faço sempre por você, mato por você, e machuco os outros
por eles e por você. Não sou: só reflito pele, músculos, pelos.
Meus pés, e os seus, os deles, estão molhados, pois nos movemos juntos.
Tenho terra para plantar, muita comida é para você: Outro.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Um dos três
1.
o tempo é como vinho
leva tempo até poder desfrutar
já a poesia é como água
nasce assim de todo lugar
mas alguém ainda faz o milagre
de poesia fazer tempo virar
2.
outro dia caiu um homem do meu lado
na calçada e de cabeça
tinha pulado do prédio para desestressar
que pessoal indelicado
inventam sempre uma modinha
e ninguém nem para me contar
fui pesquisar e descobri que até faz bem à saúde
se chama suicídio ocupacional
e já usam na medicina
por isso agora
para fugir do tédio
uso sempre aquele prédio alí na esquinasegunda-feira, 8 de agosto de 2011
Urbanismo
Estou correndo velozmente até que me param
Uma mão acena do outro lado
A rua me nega passagem, mas sigo
Viro a esquina e já não há vaga
E quero comer, pedir depressa
Estaciono e faço parte do mar de gente
Que não é gentil, eles também comeram depressa
Dentro de prédios não se sabe para quem trabalhamos
As horas são passadas a força
Denovo pela rua, não existe horizonte na cidade
Compro remédios para o estômago
Pessoas nunca gostam de ler livros grossos
Dou moeda ao malabarista, uma grande
A moto do menino cai pela canaleta
Acelero em todas as vinte e quatro horas do dia
Calculo o tempo de viagem até lhe encontrar:
- Não, você não acenou para mim. Eu teria visto.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Um curta em plano-sequência
O clássico homem observa o mar e vai contornando a orla a fim de despistar suas lembranças até chegar a casa onde lava os pés de areia para não sujar o reluzente chão que o bebê usa para engatinhar em busca de sua única e necessária mamadeira resfriada pela mãe com duas gotas sobre o pulso magro esquerdo e maqueado tanto para esconder os cortes de sua ilusão contínua e diária como para revelar sua beleza esguia no espelho que reflete o clássico homem chegar ao quarto com a sua testa franzida sem motivos óbvios e com os pés ainda molhados marcando o carpete usado pelo bebê que busca seu alimento nos dois peitos sempre bem guardados e vestidos com as modernas peças de sua mãe já produzida e fumando seu cigarro para não transparecer sua frágil e permanente felicidade junto ao clássico homem que no mesmo instante sai do banho arrumado em seu semblante esfíngico e desce em direção a porta pela qual acabara de chegar deixando órfão o bebê que continuará buscando a comida da mãe que o clássico homem não alimenta.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Guerra ou não
Que tem um homem para falar da guerra que viveu, se não a dor que sente ao olhar para trás?
Pela cidade onde vivia andava devagar disperso, sem nada lhe fazer cansar
mirando sempre ao longe para entender o todo, seu rosto disposto
diante à praça emocionava pelo violão chorado o ouvido atento de qualquer passante
vida que seguia parecia distante porque o tempo devagar andava antes
e fez tudo para o amor durar e emoldurar a foto sua de casamento
sua mulher e seus três filhos tão meninos mal sabiam o destinto seu, quanto ao pai
que desconhecia xingamentos, quando ouviu logo logo se arrependeu
Mas sem compreender matar chamado fora a guerrear, e pela mão do comandante
aprendeu que para viver se corre, se não morre e se perde o coração
então, ao treinamento deu-se inteiro pois no mesmo mês fevereiro já havia começado
passando os anos e sem retorno à casa a dor dificilmente passa, do amor fica a lembrança
de não mais poder voltar, foi aí que entregou-se ao seu destino chamou Deus de cretino
foi na frente da defesa mirou só na cabeça e ninguém pôde lhe deter
O peito, agora, não suporta mais o peso desse remorso que invade a alma e atordoa, é triste
quando está a toa é impossível não lembrar, mas a chorar resiste por saber ainda cantar
sua voz hoje em dia é rouca, a poesia é pouca comparada aos tempos de outrora
morreu além da melodia, quem sempre lhe aguardou à mesa para jantar, sua família
punha a mesa todo dia e esperava da guerra voltar o pai que não vinha.
Pela cidade onde vivia andava devagar disperso, sem nada lhe fazer cansar
mirando sempre ao longe para entender o todo, seu rosto disposto
diante à praça emocionava pelo violão chorado o ouvido atento de qualquer passante
vida que seguia parecia distante porque o tempo devagar andava antes
e fez tudo para o amor durar e emoldurar a foto sua de casamento
sua mulher e seus três filhos tão meninos mal sabiam o destinto seu, quanto ao pai
que desconhecia xingamentos, quando ouviu logo logo se arrependeu
Mas sem compreender matar chamado fora a guerrear, e pela mão do comandante
aprendeu que para viver se corre, se não morre e se perde o coração
então, ao treinamento deu-se inteiro pois no mesmo mês fevereiro já havia começado
passando os anos e sem retorno à casa a dor dificilmente passa, do amor fica a lembrança
de não mais poder voltar, foi aí que entregou-se ao seu destino chamou Deus de cretino
foi na frente da defesa mirou só na cabeça e ninguém pôde lhe deter
O peito, agora, não suporta mais o peso desse remorso que invade a alma e atordoa, é triste
quando está a toa é impossível não lembrar, mas a chorar resiste por saber ainda cantar
sua voz hoje em dia é rouca, a poesia é pouca comparada aos tempos de outrora
morreu além da melodia, quem sempre lhe aguardou à mesa para jantar, sua família
punha a mesa todo dia e esperava da guerra voltar o pai que não vinha.
terça-feira, 28 de junho de 2011
Quem sabe
Um homem que nada sabe,
vive sem usar por que,
vive sem nem nunca temer,
livre e sem saber pra que
por não saber da morte, vive ainda qual menino
por jamais saber da sorte, aposta a vida em seu destino
de crescer e ser tão forte, feito caboclo nordestino.
Um homem que nada sabe,
vive sem porque lutar,
vive bem, no seu lugar,
livre, mesmo ao Deus dará
pode até ser caçoado, por seu não conhecimento
pode até viver ilhado, feito nós: apartamento
e mesmo desavisado, vencerá sem ter tormento.
O homem que assim o é,
que nada soube porque quis,
dos homens não sabe também que é
o peito vivo mais feliz.
vive sem usar por que,
vive sem nem nunca temer,
livre e sem saber pra que
por não saber da morte, vive ainda qual menino
por jamais saber da sorte, aposta a vida em seu destino
de crescer e ser tão forte, feito caboclo nordestino.
Um homem que nada sabe,
vive sem porque lutar,
vive bem, no seu lugar,
livre, mesmo ao Deus dará
pode até ser caçoado, por seu não conhecimento
pode até viver ilhado, feito nós: apartamento
e mesmo desavisado, vencerá sem ter tormento.
O homem que assim o é,
que nada soube porque quis,
dos homens não sabe também que é
o peito vivo mais feliz.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Uma mulher com uma dor
A mulher é bicho, se debate como fosse para o abate
faz todos ouvirem seu grito, choro, canto, prende as unhas
quer mesmo é ver sangrar as dores muitas
Mulher é desespero, soca as paredes do corpo para fugir
do ser, da carne grossa, pele fina. Mulher que foge é heroína
quando não, sente-se qualquer com olhar triste sorriso enorme
que para se libertar da sombra que carrega apenas corre
Contra todos ela rema, mergulha e nada, só para poder voar
e se sentir parte inerente ao vento, à pipa
é 'inda capaz de negar sua beleza, pelo ouvinte mais atento
Pois a dor de uma mulher é sua coisa mais bonita
faz todos ouvirem seu grito, choro, canto, prende as unhas
quer mesmo é ver sangrar as dores muitas
Mulher é desespero, soca as paredes do corpo para fugir
do ser, da carne grossa, pele fina. Mulher que foge é heroína
quando não, sente-se qualquer com olhar triste sorriso enorme
que para se libertar da sombra que carrega apenas corre
Contra todos ela rema, mergulha e nada, só para poder voar
e se sentir parte inerente ao vento, à pipa
é 'inda capaz de negar sua beleza, pelo ouvinte mais atento
Pois a dor de uma mulher é sua coisa mais bonita
segunda-feira, 13 de junho de 2011
O orgulho-sertão
Augusto é de lá do Sertão das Dores.
Quando menino tropeiro da Fazenda levava as mulas para beber do rio. Era hora então de assoviar passarinho e chupar cana até não dar. Do alto da pedra vê de um lado a mulada do outro alçapão. Mais tarde às Terras Roxas do seu Tonico, seu quinhão era só meia água e dois pães duros. A mãe espera da ribeira o filho menor que volta da labuta. A casa era sempre cheia de irmãos, uns que já apareciam grandes.
Augusto é lá do Sertão das Dores.
Depois que ganhou braço tratava do cultivo. Tinha faz-sombra de palha que punha na cabeça e que não o deixava ver nem metade do nasce e morre do sol, o qual sabia que vinha e ia todos os dias da plantação. A enxada estava calejada das suas mãos, e seu pé de sua enxada. Foi abrir a terra, foi botar semente, foi quem regava as plantas e já era da colheita. A mãe espera da margem o filho mais velho que volta da planície. A recompensa do trabalho era maior mas menor que a família.
Augusto é do Sertão das Dores.
Fora prometido aumento do ganho se colhesse mais que um ano num só mês. Mas as nuvens foram egoísmo de tamanho inconfundível. Das alturas só a secura quem desceu à terra-pedra, que dar-se-ava nela nada. O patrão foi para capital levando o povo da Casa, deixando nem o padre para salvar do coisa ruim, deixando-lhe nem esperança para ver chegar a chuva. A mãe espera do céu, o filho que não quer voltar.
Augusto é o Sertão das Dores.
E a borrasca que vem depois da seca inunda a região e a faz torrente. Vai levando o alçapão junto à enxada, levando as mulas que pastavam a plantação. Leva a sua casa e a Casa do homem-bom também. Do alpendre canta o passarinho um assovio qualquer de triste, e o filho agora espera do alto da pedra que a água não leva.
Quando menino tropeiro da Fazenda levava as mulas para beber do rio. Era hora então de assoviar passarinho e chupar cana até não dar. Do alto da pedra vê de um lado a mulada do outro alçapão. Mais tarde às Terras Roxas do seu Tonico, seu quinhão era só meia água e dois pães duros. A mãe espera da ribeira o filho menor que volta da labuta. A casa era sempre cheia de irmãos, uns que já apareciam grandes.
Augusto é lá do Sertão das Dores.
Depois que ganhou braço tratava do cultivo. Tinha faz-sombra de palha que punha na cabeça e que não o deixava ver nem metade do nasce e morre do sol, o qual sabia que vinha e ia todos os dias da plantação. A enxada estava calejada das suas mãos, e seu pé de sua enxada. Foi abrir a terra, foi botar semente, foi quem regava as plantas e já era da colheita. A mãe espera da margem o filho mais velho que volta da planície. A recompensa do trabalho era maior mas menor que a família.
Augusto é do Sertão das Dores.
Fora prometido aumento do ganho se colhesse mais que um ano num só mês. Mas as nuvens foram egoísmo de tamanho inconfundível. Das alturas só a secura quem desceu à terra-pedra, que dar-se-ava nela nada. O patrão foi para capital levando o povo da Casa, deixando nem o padre para salvar do coisa ruim, deixando-lhe nem esperança para ver chegar a chuva. A mãe espera do céu, o filho que não quer voltar.
Augusto é o Sertão das Dores.
E a borrasca que vem depois da seca inunda a região e a faz torrente. Vai levando o alçapão junto à enxada, levando as mulas que pastavam a plantação. Leva a sua casa e a Casa do homem-bom também. Do alpendre canta o passarinho um assovio qualquer de triste, e o filho agora espera do alto da pedra que a água não leva.
terça-feira, 31 de maio de 2011
A prole do soldado
estou aqui não vê pois eu que ainda acredito dispara quando só tiver certeza
pois se sim porque disfarça na redenção do excomungado e com inimigo sob a mira
então seu dengo o faz por graça sendo pela fé que grito puxe o gatilho com frieza
ou agradece a quem lhe dê? e por meu santinho lascado para que não lhe apenas fira
uma desgraçada guerra venho lhe convercer contrário depois fuja à densa mata
pra travar durante os dias dessa sua tão grande tormenta reze por perdões alheios
esquecendo da miséria e do ódio que alimenta não me acuse de bravata
e desapego a rebeldias a cada dia do calendário que alguém lhe cobre os seios
que lhe mataram o pai já sei hereditariedade reafirmo os ideais da dança
e que vingá-lo disse "hei!" que do nome se supõe da nossa vida urbana e tola
será rancor o que apetece se o pai teve tal bondade de viver cedo e morrer à toa
e nada mais o esmorece? filho seu também dispõe? obcecados pelo som vingança
faça sim porque lhe cansa por fim já disse eu o que queria a despedida chegou já
ver toda sua esperança o horizonte já me aponta tudo dito aqui está
ser apagada pelo tempo seguindo o mar também me encontra que seja leve então seu fardo
sol chuva e firmamento quem lá disser que cria adeus à prole do soldado
pois se sim porque disfarça na redenção do excomungado e com inimigo sob a mira
então seu dengo o faz por graça sendo pela fé que grito puxe o gatilho com frieza
ou agradece a quem lhe dê? e por meu santinho lascado para que não lhe apenas fira
uma desgraçada guerra venho lhe convercer contrário depois fuja à densa mata
pra travar durante os dias dessa sua tão grande tormenta reze por perdões alheios
esquecendo da miséria e do ódio que alimenta não me acuse de bravata
e desapego a rebeldias a cada dia do calendário que alguém lhe cobre os seios
que lhe mataram o pai já sei hereditariedade reafirmo os ideais da dança
e que vingá-lo disse "hei!" que do nome se supõe da nossa vida urbana e tola
será rancor o que apetece se o pai teve tal bondade de viver cedo e morrer à toa
e nada mais o esmorece? filho seu também dispõe? obcecados pelo som vingança
faça sim porque lhe cansa por fim já disse eu o que queria a despedida chegou já
ver toda sua esperança o horizonte já me aponta tudo dito aqui está
ser apagada pelo tempo seguindo o mar também me encontra que seja leve então seu fardo
sol chuva e firmamento quem lá disser que cria adeus à prole do soldado
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Universo cíclico
Lá, os objetos caem apenas por possuírem peso e já não valem mais que seu espatifar. Dos cacos remonta-se o ideal e do topo de uma pilha destes é possível observar o quão longe se está dos antigos altares. As venerações de um passado próximo dão vez às certezas e as indagações são tolices contestadas. Quem habita o novo lugar são os sonhos humanos, os quais também não valem mais que estilhaços, que ímpeto, ou que moral. Aliás, a perda dos valores foi um pré-requisito a todos os viajantes, bagagem desnecessária. Aqueles muito vividos percebem, logo de início, ser o momento de pisar no freio ou seguir consumindo os próprios males.
Há quem prefira tirar as almofadas para que não se desfaça o contato com a realidade. A opção de ficar coberto, esperando o fim do temporal, foi supressa depois do primeiro acidente. Porém, a incredulidade fez refém seus criadores, que agora torcem por um despertar coletivo sem nada poder fazer. É incrível que já passem dos milhares de usuários e tal utopia siga inabalada. Parece caótica sua desenvoltura performática, que mesmo obedecendo à lógica, se ramifica e bifurca. Com o passar do tempo exige mais esforço individual, mais concentração para manter os mesmos resultados, torna-se árduo prosseguir. Os desfrutes vão rareando, a fonte seca.
No primeiro fraquejar ocorre o desmonte: cacos e peças misturam-se derrubando o prisma do orgulho social. Faz chorar seus idealizadores. Então, a maior obra que ergueu o homem cai. Sem a possibilidade do exílio, retornam os mitos, os valores e as crenças. Os sonhos, tão seguros que são de si, tomam de volta seus ideais e anunciam-se como os salvadores. Humanos que são, servem apenas de bússola aos pioneiros que recomeçam a busca da liberdade que acabaram de rejeitar.
sábado, 7 de maio de 2011
Vai para o varal
Por ser o herói quem seu povo liberta
Quem sara a cicatriz ainda aberta no peito
E o vazio geral com esperança completa
Merece tanto quanto respaldo respeito
Pois que seu passado infortúnio garante
Gerar animosidade fundando um levante
Não quererá eternizar-se de tal feito
Ou ainda de maior qualquer descoberta
Sabendo sempre ser do povo o jeito
E a responsabilidade já aqui inquieta
Se conscientes contudo não agem
Se aceitação e pão levam a conformar
É que surge daí tamanha coragem
De um herói saber exigir seu lugar
Porém só embasado da total certeza
Porá palavras e não rifles à mesa
Gente cansada esperou nem estiagem
Saiu ainda chovendo para labutar
Agora reunida quer sem camuflagem
Ser reconhecida lá do posto que ocupará
À quem duvide minha plena sanidade
Da qual faço gosto até o dia que for pro céu
Lamento apenas vossa incapacidade
De compreender um verdadeiro cordel
terça-feira, 26 de abril de 2011
Vasto léxico de olho
O olho foi seco e viu de um tudo pela estrada.
Observou a paisagem, mirou o painel, tomou nota do clima e tempo; fitou de soslaio o espelho, assistiu as pessoas que cruzou, avistou lágrimas nas pessoas mas desconsiderou qualquer maior envolvimento. E como um ininterrupto operário-máquina prosseguiu, desprovido de descanso, alternando piscadelas e vistas grossas. Embaçou-se e foi dormir. Perdia sempre sua utilidade na falta de luz, perdia sempre para luz na utilidade.
Descrevendo sempre por completo cada quadro da sequência, atualizava instante a instante o perfil de objetos e seus meios-tons, a textura e temperatura. Não escapando nem tristeza de palhaço ou felicidade de poeta. Como fosse laser de três dimensões, ao apontar para minha volta recobriu as reentrâncias com presença de gente. E como um filme à meia-luz, era delicado suficiente para nunca exagerar, era exato no relato. Dependendo apenas de si o erro não teria margem.
Despossuía zoom, porém detinha definição e realce poderosos, tão, que distinguiu a nostalgia do romântico. A tela onde desenhava seus recortes e colagens era o dia-a-dia; filtrava-o de acordo com as condições de luz: claro, pretenção e escuro, tendência. Foi pré-análise de muitos beijos, e goteira de tantos outros adeus. E como foi de se esperar representou obras magníficas, que, talvez se fosse arquivo, as perpetuaria, pois não sendo, foi efêmero.
Inibiu-se diante às cores sólidas e também as ruídas demais. Isso, terrível que era, era como microscópio para achar planeta, subjugamento de seu potencial. Só podia ver inverso, e por isso, vez ou outra, eu distraía-me. Não adiantou colírio, lentes ou esfregada: quando cegou, cegou. Assim, nem retina, íris, córnea; pupila, cristalino e mácula foram tão findados em toda uma vida.
Não importou a lente convergente, multifocal ou progressiva, foi clara a divergência entre fitar e enxergar.
E também não importou mudar o foco para perto ou para longe, tornaria todas as vezes ao panorama.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
O sufoco
Apelo ao meu pulmão para que berre o maior pedido de socorro. Suplico ao silêncio que me dê forças suficientes para chegar ao próximo grito. Imploro diariamente, não que me ouçam, mas que haja outra voz. E há, sinto a vibração chegando. Posso sentir aqui das paredes de onde me aprisionam; também da lama que me prende os tornozelos; sinto que há alguém sufocado.
Que meus carcereiros não me repreendam ainda. Meus pedidos serão apenas intervalos entre as acomodações do cotidiano: serão espaçados instantes de liberdade. Sem mais implicações na nossa engenhosa estrutura de relacionamento humano. Apesar de querer estar enganado, não vejo porque dos conservadores temerem. Cuidam muito bem do cativeiro, sem que ocorra uma ruptura sequer.
Anda coração, chora! Soluça devagar em meio as suas lágrimas, mas me conta seu desespero, me narra sua tragédia, me explica a força que têm os seus medos. Intera-me da sua necessidade de fugir daqui, e, então, iremos juntos ao que é verdadeiro.
Fico em dúvida, há outra voz ou só ouço ecos de mim? Tem de haver, pois o que digo é puro. Tem de ser alguém lançando suplícios ao vento, pois se não, porque tenho os braços prontos para agarrá-los; e respondê-los. Preciso que haja alguém vivo aqui dentro e que me ajude a pedir resgate desse domínio sórdido.
É preciso haver no mínimo uma outra garganta. Pois já não tenho força para chamar. Minha energia se deteriora ao ver a politização do sentimento, ao ver a complacência com que assistem ao horror, e a rebeldia, tão aclamada outrora, servindo-se de jantar ao predador.
É preciso, eu preciso
É preciso, eu preciso
sexta-feira, 8 de abril de 2011
O sol, a praia, deixou só
O vento bateu foi para gente se secar!
As aves que voam só cumprem seu papel
Cabelo, chinelo e o protetor solar
O amor que sinto, só não faz falta para quem tem
Solidão é nossa amiga
bateu no peito e agora fica
A onda desmancha areia e traz anzol
Penteia e calça para não se queimar
Verão, bem-vindo à tristeza de minha inspiração
Mas faça um batuque na mesa
que eu não esqueço a beleza
de compor um simples samba tropical
Podendo eu voltar no tempo
Careca, descalço e negão
Um naufrágio já é audiência
Pescador que perdeu a licença
assiste passivo a televisão
segunda-feira, 14 de março de 2011
Amar na velocidade da luz
Voltou do trabalho mais cedo que o normal. O elevador subiu, 4° andar, porta, chave, geladeira. Caminhando até o quarto, - Amor, viu sapato no chão, roupa e traição. Tão veloz chegou a vontade de chorar, foi embora. Embora fosse ele homem ausente, o casamento foi há cinco meses. Na mesma noite o bar dava-lhe raiva. Tequila, sinuca, a vontade de trair, - mas como se já nada existe. Vodca, briga, expulsão, outro bar, boa noite, ombro para chorar. Já era manhã quando dormiu. Ainda de manhã acordou, ressaca, saída. E no trabalho, abandonado, dá-se conta de que já não passa de um alcoólatra .
Abandonada pelo estranho que afagou, desesperançou-se toda. Foi ao centro cirúrgico, vestiu jaleco, bisturi, - A paciente precisa de repouso, almoçou. Deu-se folga o resto do dia e foi ao parque ver o fim de tarde, veio o sol, vieram pombos, foi-se o sol e trouxe a lua. Era já por muitos redeixada. Antes, resolveu naquela manhã que iria mudar, mudou, não procurou se apaixonar, ofereceu-se ao marido da paciente, deu-lhe telefone, marcou na casa dela.
Reparou que o marido esticava o tempo necessário no hospital. Ouvia que dormia à cabeceira, acordava não o via, ligou certa vez atendeu a doutora, era o fim. Não se recuperou bem da cirurgia e usava cadeira de rodas. Doíam as costas, uma pílula, doíam os braços, uma pílula, doía o coração, antes de tomar as pílulas necessárias internou-se numa clínica. Depois de um ano, liberada. Depois de cinco, dá palestras a outros viciados. Conheceu nas reuniões um coração partido. E abandonado.
*Só um bolo de histórias concomitantes que alguém perdeu.
Abandonada pelo estranho que afagou, desesperançou-se toda. Foi ao centro cirúrgico, vestiu jaleco, bisturi, - A paciente precisa de repouso, almoçou. Deu-se folga o resto do dia e foi ao parque ver o fim de tarde, veio o sol, vieram pombos, foi-se o sol e trouxe a lua. Era já por muitos redeixada. Antes, resolveu naquela manhã que iria mudar, mudou, não procurou se apaixonar, ofereceu-se ao marido da paciente, deu-lhe telefone, marcou na casa dela.
Reparou que o marido esticava o tempo necessário no hospital. Ouvia que dormia à cabeceira, acordava não o via, ligou certa vez atendeu a doutora, era o fim. Não se recuperou bem da cirurgia e usava cadeira de rodas. Doíam as costas, uma pílula, doíam os braços, uma pílula, doía o coração, antes de tomar as pílulas necessárias internou-se numa clínica. Depois de um ano, liberada. Depois de cinco, dá palestras a outros viciados. Conheceu nas reuniões um coração partido. E abandonado.
*Só um bolo de histórias concomitantes que alguém perdeu.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Sentença da rotina
Canta. Pois não há no mundo voz
tão rouca que caiba em tão belo pescoço
que cobre a garganta cheia de nós
e cheia de nós que caimos no poço.
Pois se não vivo, morro
Chora. Para ver o desfile das mais belas
tempestades encantadas de harmonia
descendo abruptamente, apagando velas
e centelhas que faiscam da noite vazia.
Pois se não vivo, morro
Ora. Prontamente, não havendo miséria
à culpa divina se aplica tal merecimento e
atormentado da pobreza da humana epopeia
fatores todos levam ao nosso julgamento.
Pois se não vivo, morro
Ama. Prefere o poeta fazer.
Disposto a tudo olvidar por você.
Intérprete da alma; disse o condenado
Pois se: não vivo, amado.
tão rouca que caiba em tão belo pescoço
que cobre a garganta cheia de nós
e cheia de nós que caimos no poço.
Pois se não vivo, morro
Chora. Para ver o desfile das mais belas
tempestades encantadas de harmonia
descendo abruptamente, apagando velas
e centelhas que faiscam da noite vazia.
Pois se não vivo, morro
Ora. Prontamente, não havendo miséria
à culpa divina se aplica tal merecimento e
atormentado da pobreza da humana epopeia
fatores todos levam ao nosso julgamento.
Pois se não vivo, morro
Ama. Prefere o poeta fazer.
Disposto a tudo olvidar por você.
Intérprete da alma; disse o condenado
Pois se: não vivo, amado.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Confissão de uma péssima testemunha
Não era um olhar cativante, indecifrável ou de pura beleza; eram Olhos aqueles olhos.
Nunca entendi como dizem que olhares podem dizer tanto - e agora duvido que olhares possam, até mesmo, chegar a se expressar - pois diante dos dois olhos que encontrei não acredito mais na comunicação humana.
Me distraem as pessoas com seus destinos e seus modos diferentes de andar, me distrai tanta coisa pelo caminho que faço para casa, que vou esquecendo as cores e relevos, mas tento não esquecer daqueles olhos. Por isso escrevo descrevendo o que vivi, por isso não me aguento sentir emoção tão grande sozinho, por isso me atrevo mesmo sabendo que fazem poucos minutos e já sinto que não se poderá mais, na vida, reescrevê-los.
Me distraiu o tempo que fiquei inerte ao sair da exposição - aberta à qualquer um e deserta de qualquer outro - e não conseguia me lembrar de minutos anteriores. Lá vi quadros e rabiscos nas paredes, colagens e texturas, mas me intrigaram mesmo desenhos de um João Maria; talvez, pela crítica social embutida numa caricatura da cidade. Parado e como sempre um pouco distante dos desenhos (ou pinturas, não conheço sequer isso de Arte) observava as imagens de pessoas gigantes e carros anões, estes nas calçadas e aquelas no meio da rua. De um dos desenhos mal lembro o nome.
Me distraem compromissos e as sujeiras ribeirinhas, me distrai tudo; e tudo não quer que eu lhe conte de tais olhos. Olhos que pertenciam à uma morena, mas dela também já esqueci para dedicar-me a recuperá-los. O quadro tinha nem quarenta por quarenta centímetros, a tela era um papel rasgado de um desenho maior. Porém os Olhos mediam mais; tais, mediam não-sei-quanto. Tentei pôr todas as sabedorias que tenho empilhadas, mas eles mediam mais: Mal cabiam na exposição, quiçá no quadro.
E me distraí outra vez por pensar que dos meus olhos viria choro - não veio. Os Olhos, que com os meus vi, eram a prova viva do que me diziam; eles me contavam algo e em seguida explicavam com detalhes os argumentos dos quais eu já nem me lembro, pois me distraem os próprios olhos. Imaginei, do artista, uma certa petulância ao expor olhos, assim, sem aviso prévio. Quis reclamar. Olhos me fizeram esmorecer a revolta.
Vão fugindo da minha lembrança porque agora já faz horas que os vi. Talvez, um pouco mais e até esqueça deles. Sempre me distraio quando escrevo, de modo que findo por esquecê-los, quando justamente faço isso pra eternizá-los.
E que agora, sem mais tardar, me acusem da miséria humana, de haver no mundo poluição tamanha ou da efemeridade dos sentimentos; e que me denunciem de tudo isso, mas sem esquecer de acrescentar uma última culpa: O crime de não contar a cada um que vive, como eram esclarecedores, sinceros, solidários e usurpadores, aqueles olhos. A tal ponto que roubaram de mim qualquer melhor descrição, roubaram todos os seus detalhes de minha lembrança, e também as minhas forças, que sem elas já nem me aguento vivo.
Nunca entendi como dizem que olhares podem dizer tanto - e agora duvido que olhares possam, até mesmo, chegar a se expressar - pois diante dos dois olhos que encontrei não acredito mais na comunicação humana.
Me distraem as pessoas com seus destinos e seus modos diferentes de andar, me distrai tanta coisa pelo caminho que faço para casa, que vou esquecendo as cores e relevos, mas tento não esquecer daqueles olhos. Por isso escrevo descrevendo o que vivi, por isso não me aguento sentir emoção tão grande sozinho, por isso me atrevo mesmo sabendo que fazem poucos minutos e já sinto que não se poderá mais, na vida, reescrevê-los.
Me distraiu o tempo que fiquei inerte ao sair da exposição - aberta à qualquer um e deserta de qualquer outro - e não conseguia me lembrar de minutos anteriores. Lá vi quadros e rabiscos nas paredes, colagens e texturas, mas me intrigaram mesmo desenhos de um João Maria; talvez, pela crítica social embutida numa caricatura da cidade. Parado e como sempre um pouco distante dos desenhos (ou pinturas, não conheço sequer isso de Arte) observava as imagens de pessoas gigantes e carros anões, estes nas calçadas e aquelas no meio da rua. De um dos desenhos mal lembro o nome.
Me distraem compromissos e as sujeiras ribeirinhas, me distrai tudo; e tudo não quer que eu lhe conte de tais olhos. Olhos que pertenciam à uma morena, mas dela também já esqueci para dedicar-me a recuperá-los. O quadro tinha nem quarenta por quarenta centímetros, a tela era um papel rasgado de um desenho maior. Porém os Olhos mediam mais; tais, mediam não-sei-quanto. Tentei pôr todas as sabedorias que tenho empilhadas, mas eles mediam mais: Mal cabiam na exposição, quiçá no quadro.
E me distraí outra vez por pensar que dos meus olhos viria choro - não veio. Os Olhos, que com os meus vi, eram a prova viva do que me diziam; eles me contavam algo e em seguida explicavam com detalhes os argumentos dos quais eu já nem me lembro, pois me distraem os próprios olhos. Imaginei, do artista, uma certa petulância ao expor olhos, assim, sem aviso prévio. Quis reclamar. Olhos me fizeram esmorecer a revolta.
Vão fugindo da minha lembrança porque agora já faz horas que os vi. Talvez, um pouco mais e até esqueça deles. Sempre me distraio quando escrevo, de modo que findo por esquecê-los, quando justamente faço isso pra eternizá-los.
E que agora, sem mais tardar, me acusem da miséria humana, de haver no mundo poluição tamanha ou da efemeridade dos sentimentos; e que me denunciem de tudo isso, mas sem esquecer de acrescentar uma última culpa: O crime de não contar a cada um que vive, como eram esclarecedores, sinceros, solidários e usurpadores, aqueles olhos. A tal ponto que roubaram de mim qualquer melhor descrição, roubaram todos os seus detalhes de minha lembrança, e também as minhas forças, que sem elas já nem me aguento vivo.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
E finalmente, amar deveria ser coisa toda
Contar a alguém, durante a madrugada, o amor que se sente deveria ser o amor na mais pura essência; e no mais puro aroma. Contar ao mesmo alguém que o amor só vale quando é amado, porque não basta ser dito, é dizer a ele que amor demais está sendo feito; amor demais, que não existe, pois amor sendo essência está sempre na medida exata: não transborda.
Não transborda, mas também não cabe; corpo humano é tão pequeno pro amor na mais pura essência. Corpo humano cabe nem mais que um trezentos quilos, amor sendo toneladas, estoura corpo humano e o deixa em pedaços quando teimam em pô-lo num só peito de homem; Corpo humano, dessa maneira, cabe não mais que um amor. Cabe não mais que um amor, pois um amor precisa de dois corpos; corpo humano é feito então pra caber meio amor.
Meio amor é o meu amor. A metade outra é sua. Amor que quis por num só peito meu de homem, era pra que um dia pudesse dar a alguém; mal sabia eu que nunca pode-se pôr amor em peito de um só. Mas tive sorte de aparecer um corpo humano outro a se juntar ao meu.
Considerando o contrário do sim o não e o do não o sim, amor só pode ser talvez. Talvez de tão contrário a si, só possa ser o mesmo amor. Assim, o peito meu estala de amor; assim também, o peito meu quer mais amor pra ser estalado. Quando corpo humano explode de amor, só ele sabe o que sentiu, e apesar de tal explosão ficar marcada no corpo, o amor ninguém saberá que foi. E nunca corpo humano sentirá o mesmo amor.
Tal amor a qual me refiro, dá-me uma beleza branca, não sei nem se sabe o que me causa; mas tal amor é o da mais pura essência - igual só há dentro a um templo maia - e quero mais. E, um dia, será ela a culpada quando meu corpo humano explodir e, estalado, espalhado e jazido, me encontrarem. Mas a culpa que ela terá será só digna de contemplação; será culpada de amar sem fim. E se julgada responsável por explodir peito de homem com tanto amor, condenada estará a fazer do mesmo homem o mais feliz da espécie.
*
A tempestade relampeja e com seus fechos de luz, que me acordam na noite, faz aumentar a tensão que é escutar seus rugidos. Mas tempestade não assusta; tempestade não derruba amor.
Não transborda, mas também não cabe; corpo humano é tão pequeno pro amor na mais pura essência. Corpo humano cabe nem mais que um trezentos quilos, amor sendo toneladas, estoura corpo humano e o deixa em pedaços quando teimam em pô-lo num só peito de homem; Corpo humano, dessa maneira, cabe não mais que um amor. Cabe não mais que um amor, pois um amor precisa de dois corpos; corpo humano é feito então pra caber meio amor.
Meio amor é o meu amor. A metade outra é sua. Amor que quis por num só peito meu de homem, era pra que um dia pudesse dar a alguém; mal sabia eu que nunca pode-se pôr amor em peito de um só. Mas tive sorte de aparecer um corpo humano outro a se juntar ao meu.
Considerando o contrário do sim o não e o do não o sim, amor só pode ser talvez. Talvez de tão contrário a si, só possa ser o mesmo amor. Assim, o peito meu estala de amor; assim também, o peito meu quer mais amor pra ser estalado. Quando corpo humano explode de amor, só ele sabe o que sentiu, e apesar de tal explosão ficar marcada no corpo, o amor ninguém saberá que foi. E nunca corpo humano sentirá o mesmo amor.
Tal amor a qual me refiro, dá-me uma beleza branca, não sei nem se sabe o que me causa; mas tal amor é o da mais pura essência - igual só há dentro a um templo maia - e quero mais. E, um dia, será ela a culpada quando meu corpo humano explodir e, estalado, espalhado e jazido, me encontrarem. Mas a culpa que ela terá será só digna de contemplação; será culpada de amar sem fim. E se julgada responsável por explodir peito de homem com tanto amor, condenada estará a fazer do mesmo homem o mais feliz da espécie.
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A tempestade relampeja e com seus fechos de luz, que me acordam na noite, faz aumentar a tensão que é escutar seus rugidos. Mas tempestade não assusta; tempestade não derruba amor.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
LXIX
A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. Você aposto que nem sonhava comigo. Entretanto, eu quase que ouvia a sua respiração. [...] O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; — com esta diferença que o mar é estúpido, bate sem saber por que, e o meu coração sabe que batia por você.
Carlos Maria
[adaptação]
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